segunda-feira, 30 de abril de 2012

Don't pull me hard.

O que é festa, para você? Se seus pensamentos foram de encontro a brigadeiros, bolo, parabéns em forma de constrangimento e entes queridos, provavelmente você não entende o conceito de festa. Festa e aniversários são coisas diferentes. No aniversário, você comemora mais um ano de seu nascimento, ou do nascimento de seu amigo, parente, etc. No geral, alguém está ficando mais velho! Já a festa, pode ser a celebração de qualquer coisa, ou mesmo a não celebração.

Mas festa nem sempre é regada de doces e bebidas. Há algumas que fazem mal. Não para seus convidados, mas há anfitriões obrigados a estar ali. E isso é deveras terrível
Eu já fui obrigado a estar em uma festa que eu não queria. Vi pessoas se divertindo, gente atrevida, gente feliz e gente que não se importava se eu estava em um estado pleno de alegria. Acontece que eu não estava, mas ninguém notou.

Não vamos exagerar, certo? Há pessoas maravilhosas nesse mundo que não precisaram estar naquela festa para ver a minha agonia. Algumas não tiveram coragem de ir, por outro lado, outras estavam me esperando. Chorando muito, eu notava isso. Mas não pude chegar perto delas, queria confortá-las. E desprendê-las de um mito idiota. 

A cor não significa nada para mim. Ela é tão insignificante quanto a minha dor. Ou o meu sofrimento, porque durante toda essa festa, eu sofro. E não é qualquer sofrimento bobo, como desses em que o garoto beija a outra na festa da namorada e ela tem o coração partido.
Há casos em que o meu coração literalmente se parte, ou pior. Eu perco a cabeça, de um modo geral, meu pescoço dá piruetas pelo ar, me estrangulando de um modo muito cruel.

Mas quem se importa, não é mesmo? É festa! É festa! É... velório.
Para minha espécie, toda festa acaba em velório ou em um estábulo onde um médico nos examina. Tem alguns que não se importam muito com a gente. Eles nos dão qualquer droga para aliviar a dor, mas uma quantidade insuficiente para dormir. Com a desculpa de que amanhã sentiremos dor de novo, ele terá de voltar e... começa o ciclo econômico.

Mas como eu disse a principio, existem pessoas boas por aí. Um deles resolveu me levar daqui. Deve ter pagado uma boa quantia em dinheiro. E graças a ele, posso contar a vocês o que eu vi ali.
Show de horror, peça macabra. E acreditem ou não, Stephen King choraria ao ver o meu sofrimento ali, a minha angústia. E nenhum livro ou filme poderiam tocar o coração dos convidados da minha festa.

Da minha festa... do meu funeral. Hoje eu vivo em uma fazenda bonita, com colinas, muita grama boa e carinho de meus companheiros. Ainda tenho marcas, muitas. Mas elas já não doem tanto assim, a pior dor é aquela que sinto antes de dormir. Quando me deito, olhando para as estrelas, fecho os meus olhos e consigo ouvir o barulho ensurdecedor dos gritos de parabéns. E são muitos, desnorteado, eu não consigo dormir logo de cara. Preciso de algumas coisas, drogas talvez. O doutor sempre vem com a quantidade certa para fazer com que eu não volte a pensar na dor, pelo menos durante aquela noite. Mas só para deixar de pensar, pois eu não consigo esquecê-la.

É tanta corda, tanto choque. Tanto dinheiro envolvido nisso. A minha revolta não é notada. Mas os meus ataques de fúria, sim. E se eu matei, foi porque estava cansado de não ser mais respeitado. Todo mundo tem os seus altos e baixos, mas garanto que não matei ninguém depois que sai de lá. Era uma prisão, de fato. Mas a liberdade que tenho agora, mesmo com cercas em volta de mim, é completa.

Ouso dizer que hoje sou feliz. Talvez nem tanto quando a noite chegar. O céu escuro me faz pensar, e muito. Eu penso em todos os que estão em suas festas, sendo obrigados. E de repente me dá uma tristeza, e eu choro.

"E quando a esperança resolver pular a sua porta, não se preocupe. Eu irei amarrá-la em uma corda, exatamente como fizeram com você. Puxando-a de volta a sua porta, porque não devemos fazer grosserias com quem não merece. E ela, contrariada, irá perguntar qual é o seu pedido. Você pode pedir o que quiser. Sem restrição. E de repente, a esperança me olha, e me concede um pedido em forma de desculpas. Eu não preciso pensar. É simples o que eu quero, mas complicado de ser realizado. Mas não ligo, eu quero isso. E peço, com muita clareza: Que os rodeios acabem de uma vez por todas."

Um comentário:

  1. Muito bom! Espetacular o texto Rafa! (devia fazer jornalismo)

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