sexta-feira, 2 de maio de 2014

Cela XVII

Riscou um fósforo perdido pelo rodapé das paredes secas e com pouca luminosidade. A única janela estava escura, deveria ser outra noite não notada e sentida pela ausência quando esta fosse embora. Os ruídos diminuíam conforme os ponteiros curiosos corriam, aparentemente todos temiam tais ponteiros, pois sempre os observavam com as íris preguiçosas lamentando pela corrida ser tão devagar.

─ É como se eu nunca fosse me encaixar neste mundo. Teria alguém cometido tamanha maldade em me trazer para tempos sem a pureza dos clássicos? Oh, como esse vazio em meu peito há de ser preenchido? Que sensação é essa de querer gritar quando todos são surdos e quem vos fala completamente mudo às quatro da madrugada? Por onde andam os violinos tocados pela paixão? Seria a exterioridade tão poderosa a ponto de condená-los também?

Nesta terra, o aroma é fresco, mesmo que ela seja antiga e esteja com vestígios de desleixo. Alguns sons me são familiares, o fogo agindo sobre essas novas texturas que não recordo o nome, mas que são pálidas e capazes de guardar qualquer mensagem. Até mesmo esta, a de um jovem com muitos anos preso em sua ampulheta.

Perdoem-me, mas os grãos correm para os braços da gravidade, eles não me ofereceram cavalos velozes, não há como sair de um lugar tão insignificante, tampouco mapa para os meus serem guiados até aqui. Tão diferentes, me colocam para dormir com atrevimento informal.
Me vestem de branco como a textura de mensagens como essa que tratei de registrar caso eu esqueça quem sou ou para a maior infelicidade do impossível, me lembrar de quem não sou no lugar que não pertenço.



quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dance, silly poet.


O homem é tão poeta quando observa
o que é belo e invisível.
Se estica para alcançar o que não vê
e se encolhe para tocar o que desconhece.
É a curiosidade sobre tantos frascos cujo
aroma é singular.


Quando o homem segura sua caneta e
valsa com ela, o mundo sorri e lhe dá
algumas horas a mais.
Os poetas não dançam parados,
mas sentados com os sapatos no chão,


Escreveste um bilhete sem destino,
ora, a quem devo entregá-lo, poeta?
E sorrindo vem maroto com seus dentes
brancos e maliciosos.
Quem precisa de destino se a bússola
de meus sonhos aponta para o papel
mais próximo da mesa?

terça-feira, 8 de abril de 2014

Fire's planet.

Hoje Marte está próximo de nós,
não me abandones por nenhum segundo sequer.
Posso ver Marte todos os dias
em todas as coisas.
Irei à Marte,
e de lá prometo amar-te,
dentro do mar regado à arte.
Amar-te.



quinta-feira, 27 de março de 2014

Ciclo

Quando as noites ficam claras
e as manhãs ficam escuras,
a água desce amarga provocando efeitos endêmicos.
Então deita em sua cama de modo não dormente.
Mas sente! Cada resquício de desconforto com
o peso em sua escápula.
Descansa o teu atlas, talvez o quebre.
Rasgue seus mapas, teus delírios, tua sina.
Liberte a efígie de seus medos.
Calafrios estendidos no hall dos militantes.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Lã alfabética

Não sei rimar, 
não sei fazer poemas,
não sei falar de amor,
mas aos que choram por não
terem a poesia dentro de si, vejam
como as palavras são mágicas e
mesmo sem saber tricotar letras,
assim o fiz, e eis aqui um casaco de escritas
quentes pra você não sentir frio.

Carnaval solitário

E de repente aquilo que era feliz 
passou por uma transformação surreal,
o contente já não tem mais riso,
amanhã não será mais carnaval. 

O ano começa para todos agora,
mas sem pressa, com demora,
ninguém precisa ter duas segundas feiras
às quatro horas de uma aurora boreal. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Stay a while

Fica um pouco,
senta comigo.
Tome alguma coisa,
mas não leve toda a sua presença consigo.
Ainda resta muita saudade comigo.

Fica.