domingo, 1 de março de 2020

They blame me


Então eles me culpam por não expressar tristeza.
Eles me culpam por não haver pranto, tensão facial
ou mesmo desespero.

A ausência de melancolia em momentos exigidos,
como se o corpo humano fosse uma máquina
onde há uma torneira para ser ligada quando a sociedade exige.

Onde estavam os apontadores, os moralistas e os cidadãos
quando a torneira transbordou e afogou o navio que tentava
permanecer na superfície das obrigações com tantos furos em seu casco?

O quarto cheio de opiniões ofensivas, discursos camuflados, imitando
anúncios de tragédias ocorridas durante a história da humanidade,
tão corriqueiro o mal dentro de tantos, mas quem irá dizer a eles?

O silêncio é a ausência de som, mas é também a presença de palavras,
palavras que não são ditas para o porto não os expulsar, mas quem garante 
que diante de tantas cobranças um dia as alças não irão arrebentar?

As pontes cairão, destruídas pelo cinismo grotesco daqueles que desejam
a morte de tantos, mas te apontam quando a morte deles não te afeta.
E no fundo, todos nós sabemos, que destino ninguém muda e não há 
pranto neste mundo que vá alterar os braços escuros da morte.   

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Chamas no Centro Oeste


Nesse diálogo noturno
expomos nossa opinião enquanto podemos
ainda somos livres ou é só um delírio vazio
no rodapé da constituição?

Querem acabar com os dizeres da revolução,
liberté, egalité, fraternité
mera ameaça que me faz te convidar,
assim, como se fôssemos jantar fora.
Ei, babe
Vamos queimar o congresso nacional
e nos beijar diante das chamas de Brasília?

Aqui não é paris e não tem torre eiffel
mas nossa classe é firme, sem luzes a meia noite
aqui só faíscam nossos olhares quando o teto que sustenta
a bandeira nacional desmorona e as cinzas da censura somem
como se nunca tivessem existido.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

I am wild because i don't want to read today


A data de lançamento era no dia 22 de fevereiro de 2008, o pior ano da minha vida. Entretanto, os acontecimentos que me levaram ao fundo do poço ainda não tinham ocorrido, portanto, era uma data como outra qualquer. Por essa razão não prestei atenção, ainda era muito jovem e não havia despertado dentro de mim o platonismo e tamanha obsessão pelo cinema. É por isso que temos um lapso de três ou quatro anos após a estréia. Digo mais ou menos porque ainda não me recordo, embora muito tente, se o vi em 2011 ou 2012, mas lembro bem que estava no ensino médio, com aquela tensão de pré vestibular que parecia o fim do mundo. Naquele momento, realmente era o fim do mundo já que eu não me sentia boa o suficiente para fazer uma faculdade, a cabeça ainda fazia mil perguntas sobre os acontecimentos que travaram quem eu me tornei hoje somado as reprovações em matérias contendo cálculos absurdos. Isso não mudou, eles continuam absurdos e nunca deixarão de ser. A questão coincidiu com o roteiro, já que eu só começaria a estudar para entrar na faculdade mais para o meio do ano, então no primeiro semestre daquele ano incerto para sempre, eu dediquei o meu tempo a assistir filmes. 


Baixava todos os dias filmes com posteres que eu achava bonito, história interessante, sinopse envolvente. Foi então que eu vi um cara meio magrelo sentado em cima de um ônibus azul. O título traduzido "na natureza selvagem" me pareceu algum documentário do discovery, mas era muito mais que isso. O Into the Wild foi um filme que eu vi e não me impactei até o final, claro, o cara morrer por ter ingerido uma planta venenosa me parecia algo absurdo demais até saber que o filme foi baseado em fatos reais, que o cara existiu, que o ônibus ainda tá lá (embora o filme não tenha sido rodado lá e sim em uma réplica por questões de respeito e história em conservar o bem patrimonial cultural por assim dizer) e que fugir do mundo foi o ideal de alguém. 

Na hora pensei: "mas que absurdo", como quem estava desiludida por terem falado tanto daquele filme e não ter me impactado, mas hoje, quase seis anos depois de ter visto o filme eu entendo perfeitamente.  Não no sentido de querer a mesma trajetória e o mesmo fim, mas no sentido de fugir de forma não literal. E por incrível que pareça, eu diria literal pela leitura. Fugir das manchetes, das notícias do mundo, fugir dos conflitos travados, fugir da política atual, fugir da intolerância com qualquer coisa que seja contrária ao que as pessoas acham correto. É, fugir.

O mesmo verbo que para mim, aquele filme retratava de forma absurda. Mas veja bem, fugir do jornal hoje é mais relaxante que qualquer ilícito que você, caro leitor, ouse a usar em sua vida.
Perdi a conta de quantas vezes fui questionada sobre algum acontecimento. "Você viu isso?", "Você acha que vão deixar?", "Tá rolando a maior treta em tal lugar, você viu?"

E a minha resposta, inúmeras vezes foi a mesma: "Cara, não vi."

Quando eu estava no ensino médio os professores berraram com seus pulmões inundados de giz de lousa verde infantil e odor de canetão permanente em quadro branco: "Leiam jornal"

A desculpa era que a gente precisava ler jornal para saber o que estava acontecendo no mundo e consequentemente, o que o enem iria pedir em sua redação, quais temas provavelmente seriam solicitados nos vestibulares.

Leiam para entrar na faculdade.

Engraçado, hoje temos que NÃO LER para SAIR da faculdade.

Meus colegas de curso não sentem o cheiro de um livro de literatura há anos, não conseguem mais escrever ou fazer alguma coisa que lhes dê prazer. Não podemos passar horas lendo o jornal e as manchetes da época do enem porque aquilo é distração, não é doutrina, não é livro técnico, então consequentemente, não serve. 


A real razão da menção do into the wild é que não tenho vontade de ler as manchetes atuais e nem os livros técnicos. Tenho vontade de fugir dos jornais como fugiu o personagem do filme, queria poder ler apenas o que me desse prazer, seja livros de literatura ou notícias favoráveis a libertação animal plena. Mas não quero ler o que eu tinha que saber antigamente. 



"Não, eu não vi a notícia de hoje."

"E quer saber?"

"Eu adorei não ler nada hoje porque eu estou into the wild. "

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Make me care again.

Não é preciso mencionar o nosso atual cenário político. Tampouco a guerra na Síria. É triste? É. É lamentável? É. Mas eu não consigo me importar com nada disso. Exatamente, nada. 

Eu não me importo se bilhões nos foram roubados ou se as pessoas estão se matando com uma AK 47 só para se entreterem no final de semana. Me culpo por não me importar, mas aparentemente é um sintoma patológico. Não me importo com o exterior, com o interior, com nada. Eu ouço os problemas das pessoas e tento me afligir, tento  de todas as maneiras buscar palavras de conforto. Quando as encontro, elas saem vazias feito vento, preenchidas como um saco de papelão estourado que alguém insiste em assoprar e assoprar. Tudo o que eu me importo é com dor. Com a dor que eu sinto no meu interior, com a dor de lutar contra mim mesma em não ceder aos meus impulsos. Eu não me importo. E eu deveria me importar muito. Ainda tem uma coisa ou outra que chama minha atenção e me faz me importar, mas essas coisas não são suficientes para que eu me agarre nelas e comece a me importar com o resto. Eu realmente não acho que isso seja normal, eu não sei exatamente por quanto tempo ficarei assim. Faz meses que não vejo jornal, não acesso G1. E quando acesso algum site de notícias, eu vejo um monte de coisa e não sinto nada. Teve aquele ataque terrorista recente em Manchester. Só fiquei sabendo porque vi um post no facebook sobre a rainha Elizabeth estar prestando solidariedade às vitimas no hospital. É isso, uma senhora de noventa e um anos se importando. E eu aqui, com vinte e dois não me importando, não sentindo, bloqueada com o que eu não sei. Por que será que o cotidiano não me comove mais? Será que eu me acostumei com o fato do homem ser mal e Thomas Hobbes tinha razão quando disse que o homem era o lobo do homem?

Mas se o fato for esse, para onde eu devo ir? Porque o mundo é cercado de homens, humanos, pessoas que destroem as coisas. Para onde eu vou com esse comportamento? Eu devo prosseguir como into the wild e morrer envenenada num ônibus azul ou eu continuo aqui não me importando com nada até que um dia, como num passe de magia, eu vá para a terra de Oz e meu único pedido para ele seja que eu me importe de novo? Profundamente, desesperadamente, suplicante e de joelhos: Me faça importar!. 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Chapter eight

Se eu tentasse olhar para o céu nesse momento procurando por estrelas, eu não conseguiria sequer achar uma, pois o céu está nublado com a chuva da madrugada. Por essa razão, digamos que em uma situação hipotética eu conseguisse me deparar com um bonito e estrelado repleto de pontos brilhantes do passado. Eu encontraria os oito pontos mais brilhantes, porque hoje faz oito anos que você viajou sem se despedir.

A sua ausência me ensinou muitas coisas, acredite, sobreviver sem ter sua companhia ao meu lado não foi e não é a melhor coisa que eu faço, mas executo essa tarefa em piloto automático porque não tenho escolha. Você que sempre me ensinou tantas coisas desde pequena porque essa era a sua profissão, deixou algumas folhas do livro da vida em branco, onde eu levei o dever do aprendizado para casa e tive que fazer sozinha, torcendo para que estivesse tudo certo, pois você não iria corrigir uma linha sequer do que eu fizesse. Não mais.

Você deixou em branco alguns capítulos que para uma adolescente como eu na época de sua ausência, eram importantes. Não completamos o que planejávamos desde meus dez anos, a tal festa dos quinze. Não tivemos o brilho e o riso uma da outra quando eu te contasse sobre a experiência esquisita de um beijo todo errado. Você não me ensinou a como levantar de uma decepção amorosa. Sequer esteve presente no meu álbum de formatura da oitava série. Talvez esse capítulo tenha doído mais, é verdade.


Não houve riso seu ao me ver descontrolada na época do vestibular, tampouco ouvi suas preces para que alguma faculdade me aceitasse. Não me pintei de tinta com meus colegas durante um trote porque você não estaria em casa para gritar comigo por toda aquela tinta em cima de mim, não houve mais velas onde você me ajudaria a apagar.


Não houve tempo para você me ensinar a superar minhas notas baixas na faculdade ou mesmo a tentar entender meus professores quando eles não conseguiam me ensinar como você fazia, mas é que realmente não há como alguém me ensinar algo como você ensinava.


Você não me ensinou a me abrir com meus amigos, muitos sequer sabem da sua partida na minha vida, que sim, foi tão repentina. Outros não sabem da insônia que anda ao meu lado ou dos problemas que hoje marcam um braço cansado de apanhar. Eu ainda não aprendi esse capítulo, espero que não esteja muito apreensiva, mas é minha essência. O fechado e trancado para que outros capítulos não se dispersem sem terem sido estudados.


Mas talvez um dia eu abra a porta e deixe que as lições voem se elas quiserem, porque de todos os capítulos dessa doutrina que leio há vinte e dois anos, oito deles sem você, eu perdi o mais importante, o que torna os outros triviais e sem muito sentido.


Algumas linhas tinham que ser escritas porque as memórias estão ficando cada vez mais vazias e opacas. Me pergunto se aqueles dias de glória foram reais ou se toda a felicidade em tantos momentos realmente eram a simbologia mais doce e real da vida que eu um dia tive ao seu lado.



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Reborn

O céu tinha cor de champanhe caro quando os raios de sol cansados por brilharem o dia todo estavam se despedindo da janela de madeira. O clima era quente, como já esperado e um tanto odiado naqueles tempos que não havia nada a não ser sorrisos forçados. Parecia que depois de uma viagem incrível por tantos lugares com céus que mais pareciam uma aquarela infinita, havia o momento de voltar e encarar a realidade: Da cor que realmente era e da cor que um karma lhe teimara em determinar. Obstáculo petulante que ousa em não lhe deixar ser feliz, mas por hora, acostumado e sentar-se ao seu lado para contar suas razões de aborrecer. 

Inspirou a umidade do ar que já não era muita, conforme os anos se passavam, a impressão que dava era que o ar ficava mais lamacento. Impregnado com a ganância de sua espécie, mas tímido ainda por não apresentar as expectativas de seus sobreviventes. É estranho desejar o mesmo cenário e mais ainda por não querer nunca mais pisar ali.

Pálpebras dançaram próximo da testa e o corpo caiu no piso frio, alucinando em meio a uma convulsão epilética que seu cérebro pregou. Abriu-os por fingimento e constatou que o passado havia voltado e se transformou em um grande telão de cinema. Grande classe de poltronas, mas era preciso apenas uma para assistir ao espetáculo. O enredo foi a si mesmo, mas eram atores diferentes. Aquele que tinha de ser seu olhou em seus olhos (ou para a câmera que o estava filmando) e sorriu um pouco antes de arranhar as bochechas com as próprias unhas e conseguir líquido suficiente para desenhar com os dedos da mão esquerda na transparência de vidro.



"Renasça"

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Coma




Como se um automóvel tivesse perfurado a consciência tornando o chão quente e não frio. A desordem que há neste corpo não torna isso mais trágico, talvez fosse necessário que antes de conseguir grandes conquistas seja preciso fracassar. Como uma chuva de antíteses num céu de paradoxos onde uma ventania não é poesia e sim eufemismo. Em coma profundo por uma vida onde nada além de seus anticorpos dançantes, a sua valsa está terminando, é hora de ser quem precisa ser. 


Para estar em pé ela deve cair. E cair forte. Mas não tropeçar sozinha. Cair. Ser jogada contra o chão. Concussão diária, semanal, mensal, anual, eterna. 


Nem todos os círculos são compostos por um infinito cuja saída não existe além de desespero, com uma dose de angústia e coragem a roda se transforma em ponte. Seus passos percorrem a superfície incerta deixando a própria linha do tempo para trás. Isso traz responsabilidades para esta que vos fala, mas aceitas de bom grado pela demora. 


Longa espera. 



je ne suis pas perdue | via Tumblr
O recesso foi preciso para que todas as energias pudessem se estabilizar. Estas mãos calejadas pelas ideias que não possuem começo e muito menos fim, que partem do meio de um ser que não conseguia acordar de seus males, de suas verborragias, da ausência de preenchimento e não presença de vazio.

Acabou.



O coma termina para que todos que aqui passam seus olhos cansados possam enxergar como há viagens necessárias para não só conhecer outros lugares, mas para conhecer a si mesmo.


Profundamente.