terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

You're my favorite color

A vida sempre fora comparada aos jogos de tabuleiro. Onde o mais inteligente, que possuir uma estratégia melhor, conseguirá chegar ao outro lado. Um lado de vitórias, caminhos claros e finais melhores do que o jogador espera.
Há algum tempo atrás eu pensava que essa comparação era concreta. Mas como de costume, não vejo que algumas certezas tenham somente o lado certo.
Em um jogo de tabuleiro, por exemplo, as nossas peças podem atrapalhar uma jogada perfeita, porque ocupam aquele lugar que deveríamos guardar, mas que fora usado sem pensar direito.
Isto não é culpa de nosso adversário, é nossa. Só que é tão fácil culpar quem está a nossa frente, levando vantagem em absolutamente tudo, e mesmo assim, com aquele sorrisinho de canto que diz muita coisa quando seus olhos piscam com a mesma freqüência de um flertador de pôquer.

Jogos são jogos, e nunca sinônimos de piedade. Nos jogos você pode matar sem remorso, pois não custa nada. Tem gente que arrisca demais, arrisca esse jogo de verdade e acaba esquecendo que não somos feitos de plástico e nem de chumbo, que essas meras peças tem sentimentos, tem pensamentos e principalmente: Tem consciência dos próprios atos.
Uma frase relativa se quer a minha opinião, pois há tantos que fazem e decidem fugir para longe... O longe que acaba sendo o lugar dos prisioneiros da própria liberdade.

Hoje, não vejo as pessoas como peças. As vejo de modo totalmente diferente, cada uma é uma. E por mais parecidas que possam ser jamais serão iguais. Não há maneira de fazê-las terem os mesmos pensamentos.
Até a genética dá a sua ajuda em meu argumento tão simples, não?

Nunca seremos iguais...

Essa falta de igualdade é confundida, e por demência acabou sendo o palco principal de tragédias... Porque alguns jamais serão iguais, e se não tivermos uma ordem certa, o que será de nós?
Falta arriscar... Quem gosta tanto de arriscar, onde esteve nesse tempo? Por que não disse para nunca começar o que viria a ser algo terrível? Pobres diferentes... Distintos, sofredores, alguns vencedores.
Porque muitos perderam, porém, outros ganharam, ganharam a vida outra vez.





“A vida é como uma aquarela cheia de borrões. Por mais que o vermelho pareça com o cor de rosa forte, ele jamais deixará de ser o velho vermelho. Às vezes o azul vira verde, o verde azul, porém, sempre saberemos quem é o original.Nós somos as cores. A vida é como uma aquarela variada, porque as coisas simples, como a tinta, é que dão forma as mais belas obras de arte de nosso cotidiano.”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

My face is my crime

“Eu fui preso por um crime que não cometi. Apareci em um lugar errado, numa maldita hora que fez com que minha vida terminasse junto de minha liberdade. Onde está a justiça? Enquanto o serial killer mata pessoas a todo instante, eu estou aqui. Preso em uma jaula, pareço um animal, sou tratado como um, e ninguém está dando a mínina para o que eu sinto. Porque assassinos não sentem, e pelo visto, nem os seus semelhantes.”

Outono é o tempo em que as folhas começam a cair. Todas morrem, assim como nós. Talvez estas tenham morrido por amor, apaixonam-se no verão, e quando não são correspondidas, morrem. Amor de verão. Quem nunca teve um? O clássico das comédias românticas, com aqueles atores que tem a química certa que o diretor procura.
As pessoas sabem o que vem depois, e mesmo assim não deixam de ver.

Mas quem irá ver a sua comédia romântica? Você tem uma? Ela transformou-se em drama? Ou você não vive em um filme de Hollywood?

Os atores principais sofrem do começo ao fim, a vida não é uma peça teatral. Ela é o reflexo dos ensaios. Tudo, absolutamente tudo pode acontecer quando as cortinas abrem. Porque essas cortinas são as portas que procuramos, as portas das quais um dia também irão se fechar.

─ Você está preso.

Prisão. Vivemos presos na infância, no colégio e no trabalho. Talvez, um dia em algum asilo. Nunca teremos uma liberdade concreta. Por isso a frase: “Cair na estrada” soa tão cobiçada pelas pessoas.

─ Por quê? Eu não fiz nada.

A mesma frase. Quando ouvimos o: “Eu preciso falar com você” logo pensamos que não fizemos nada. Mas fizemos, pois se não tivéssemos feito, não pensaríamos nisso logo de cara.

─ Diga isto para a vítima, ela o reconheceu.

Como? A dúvida é uma neblina que nos atormenta, amedronta e tira nosso sono. Quem dorme na neblina? A neblina da viagem que um dia faremos. A neblina dos corpos machucados que pairam sob o ar. A neblina do crime que insiste em ficar.

─ Mentira.

A única coisa que machuca, que fere, que dilacera, que mente. A mentira mente. Mente para a alma e para o coração.

─ É ele. Ele quem fez isso comigo.

A confusão de pensamentos que começam a nascer. Teria ele feito o que ela diz que ele seria capaz de fazer? Não, não conseguia se lembrar. Mas bebera em uma festa, talvez alguém o drogou? Como negar algo que não se tem certeza? E se realmente fizera? Se ela estivesse falando a verdade? O reconhecera. Vira seu rosto com horror, os olhos cheios de rancor, dor, quanta falta de amor.

─ Culpado.

As leis são claras, como as leis da natureza. Apesar de o homem interferir tanto no mundo, não há como parar de ter sede pela justiça. A viagem vai começar. Mesmo depois de sentir uma agulha perfurar a pele que julga ser mal lavada, ouviu uma voz em sua cabeça.
Muito clara. Soava como uma melodia que ouvira uma única vez na vida, ainda na infância.

"Os relógios são traiçoeiros, as pessoas não sabem analisar. Quando a noite vem, as pessoas malvadas começam a brincar. Brincam com o prazer, levitam em plenos pensamentos conspiratórios. Os crimes acontecem, e as pessoas começam a chorar.
Lágrimas de vítima, lágrimas de gente culpada, lágrimas de pessoas que encontram algumas almas rasgadas. Outras perdidas por não saberem o motivo ao certo. Não sabemos. Mas algo é notável. No mundo inteiro, em cada continente, em cada ilha e em cada geleira há pessoas com nossos rostos sem grau de parentesco. O sétimo número é aquele que diz ser o certo. Há sete faces, sete almas, sete corações e sete pessoas convincentes. Mas por onde você andou? Agora é tarde, pois não pode provar que das sete faces, és o sexto inocente."
   

sábado, 22 de janeiro de 2011

Take a wash


Eu costumava fazer algo todos os dias, e não me refiro às brincadeiras de rua que adorava na infância. Falo das vezes que a sujeira entrava em mim, e que por desejo de meus pais, ela teria de sair.
Um banho... Oh, como era chato tomar banho. Que perda de tempo, pensei durante vários anos. Vários? Todos! O sol veio e foi embora centenas de vezes, e eu ainda odiava aquele maldito chuveiro.

 Depois me acostumei, afinal de contas, acabei crescendo. Não sou como os desenhos que permanecem intactos, não envelhecem, e quando isso acontece, sempre há uma fonte da juventude para fazer tudo ser como era antes. Eu não tenho uma fonte como essa, gostaria tanto... Fazer algo diferente, retribuir o que deveria. Mas o que me resta é conviver com tudo isso. Pelo menos é o que eu esperava até meus vinte anos.

─ Vocês têm certeza?

─ Sim, você merece. Acabou de se formar, seu emprego está ótimo, precisa relaxar. Tire essas férias, conheça alguns lugares.

Abracei essa oportunidade, quem recusaria um transatlântico saindo de um país e indo para o outro? Acho insano só de pensar nessa possibilidade.

─ Ok! Mandarei fotos. Eu prometo, venham cá!

Tinha a melhor família do mundo, e eu sabia disso.

As gaivotas voavam e em segundos eu soube que não eram gaivotas, e sim cisnes. Tão brancos quanto à paz que aquele lugar poderia me dar. A beleza de um cisne só poderia ser comparada ao sorriso sincero de um amante apaixonado fazendo sua arte ter vida.
Voaram com mais velocidade quando os motores foram ligados. Era mais admirável ter cisnes a sua volta do que nuvens. As nuvens podem ser fofas, mas você jamais poderá tocar em uma, mesmo que seu coração chore por tal ato.

O vento era tão refrescante que senti frio, muitos homens ao meu lado davam seus casacos para as moças, por egoísmo senti felicidade por não ter de fazer aquilo.
A única imagem feminina que tinha em minha frente era a de uma cadela de um senhor que dormia em sua cadeira.

O brilho do horizonte inspirou-me a desenhar, foi o que fiz. Comecei a traçar linhas leves, tão leves que mal podia enxergar. Alguma forma havia chamado minha atenção. Aquela régua natural, dividida com as mais belas cores do universo, cores de íris jamais vistas no mundo. Olhos de anjos, curvas superiores as estradas mais alucinantes que poderiam existir. Um retrato fiel ao por do sol.

─ Belo rascunho.

Olhei para o lado, notando um homem. Era um pouco mais alto que eu. Em sua cintura? O brilho da morte certa.

─ Eu não tenho nada aqui comigo, só na cabine. Podemos ir lá...

─ Eu não quero nada seu, vou ter bastante. É o seguinte, não quero ficar de papo furado com você. Eu vou seqüestrar esse navio, tenho contas a acertar com o capitão, não sei o que pode acontecer com os passageiros e não é da minha conta, meu pessoal não costuma poupar ninguém.

Absorvi cada palavra, esperando que a minha agonia fosse dilacerada com uma bala de prata cheia de ódio, pronta para me acertar. Ele então continuou.

─ Minha irmã era pintora, era capaz de pintar os segredos de uma pessoa vendo-a por minutos. Não posso matar alguém que se pareça com ela, eu quero que você pule.

─ O quê?

─ Você me ouviu, pule do navio agora, mas não fale nada. Nunca tivemos essa conversa, entendido?

─ O que vai acontecer com todas as pessoas?

O homem de aparência psicótica olhou-me com um sorriso demoníaco nos lábios. Lábios infelizes que curvavam para demonstrar o seu poder de persuasão.

─ Irão morrer.

Eu não poderia fazer isso, deixar tudo para trás só porque aquele homem insano acha que sou a irmã dele de alguma maneira. Abri a boca para protestar, mas som algum saiu.
O tempo que tive consciente foi de dor e queimação, meus olhos arderam, meus ossos trincaram. Vários deles, eu pude sentir. Leucócitos trabalhando em conjunto, deveria ser uma fratura...

Tempestade... Flutuei em uma banheira gigantesca onde o sal era meu pior inimigo. Tanto gosto que minha garganta queimava como a saliva de um doente em estado crítico.
Sorte ou pena? O perigo raspou em minhas costas, presas roçaram em minha pele, mas nada me aconteceu.

Quando abri os olhos e vi por inteiro aquele quarto branco, soube que quase morrera.
Mas eu não me lembrava de nada, o que aconteceu?

─ Você sobreviveu a uma explosão. O navio explodiu, mas você estava admirando o horizonte, e com o impacto caiu no mar. Quebrou duas costelas com a queda.

─ Quebrei com a queda? Estranho, lembro-me de sentir dor antes de cair...

“Picos de memória são normais, mas não reais” Foi o que a enfermeira disse.

Doce verdade? Fria mentira? O que é mais torturante do que passar seis anos sem saber como sobrevivera? Sem testemunhas? Ninguém?

Nenhuma seqüela física, por sorte. Os médicos acharam que tudo estava resolvido até eu encarar meu monstro particular. Furos... Agulhas no lugar de água, o chão que sangrava. As paredes que me prensavam.
Como uma câmara de tortura, cabine telefônica disfarçada casualmente.

Não posso encarar o quão ridículo soa isso. Quero tomar um banho de justiça, de felicidade, de lembranças melhores, de aves encantadoras.

Quero me livrar dos medos, da dor, da burocracia e do acerto de contas.



“Eu quero tomar um banho especial.
                 Que a água seja prateada, e as bolhas ousadas.
                                                  Numa fórmula maternal, exemplo de superação pessoal...”

sábado, 15 de janeiro de 2011

Selfish


Sou um assassino. Minha saliva é pobre em ph, minha vida é roteiro de Stephen King. Ele morreria se soubesse o que eu ando fazendo. Frio e calculista, todos os dias são sexta-feira treze para mim. É meu dever ver o sofrimento das pessoas, e mesmo assim, sentir-me vivo. Realizado, porque a causa é aquela que eu mais gosto e admiro.
Se ela morreu envenenada com um perfume, eu jamais deixaria de comprá-lo, eu o colecionaria.

Mente doentia, sutileza perdida, nada fantasiosa. Está tudo real, tão real que meus sonhos parecem ter desistido de invadirem minha cabeça. Posso controlar a dor que deveria estar sentindo, não sinto. As lágrimas que poderia estar derrubando, não choro. O amor que tenho pela fúria? Preservo.
Não sou culpado, fui vítima do amor. Esse sentimento que possuí triplas camadas de péssimas intenções

Meu café amargo é tão amante de meus lábios, que mesmo quando os queima, sinto-me em êxtase.
Embriaguei-me da angústia, meu cheiro é de cachorro molhado em dias de tempestade.
Tenho pulgas de preocupações, e muitas delas estão quebrando minha cabeça.
O anoitecer nunca deixará de ser o que venero, enquanto é pavor para quem não pode dormir.
Eu posso dormir, usufruindo de toda a minha luxúria em forma de sobrenome.
O que você tem hoje para mim? Decotes? Batom provocante? Cabelos molhados?
Essa água que me instiga tanto...

Desculpe, querida. Estou esquecendo de você, mas é que a outra sabe o que fazer. Pode ir embora hoje, vou aproveitar as visitas, quem sabe ela resolva morar comigo.
Não adianta usar esse truque, orbes molhadas não vão me excitar.
Ela já foi? Você não vai parar, vai? Continue, baby. Você sabe que se continuar, irá me deixar exausto de satisfação.

O ápice não é o bastante, sabemos disso. Ouvi dizer que as pessoas te maltrataram, falaram que és tão maldita que acabou com a vida delas. Não ligue! Se está aqui, é porque me ama, não? Ah, eu a amo. Farei qualquer coisa por você, para vê-la sorrir todos os dias. Estou adormecendo mais fácil com você aqui, fique para sempre.

Quem se importa se está chovendo sangue?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dance like an angel

Nunca fora receptora da frase: “muito bela”. Seus encantos eram outros, distintos daquilo que a maioria procurava. Dançava como o balançar do vinho livre pela taça.
A sutileza em suas sapatilhas faziam-na esquecer dos ferimentos freqüentes que possuía. Todos adquiridos com esforço, como se fosse medalhas por seu desempenho. Respirava por movimentos, e quando os realizava sentia-se completa.

─ Você é uma masoquista, sabia? Há artes que não acabam com seus pés

Ela sorriu, olhando bolhas de dor e trabalho que ganhara diariamente.

─ Não preciso ser um pássaro bonito se souber voar, e eu sei.

O Dr. Eduardo virou de costas, de volta à sua mesa de trabalho, escondendo um sorriso que queria contornar seus lábios.

─ Semana que vem quero ver essa pele renovada, pode ser?

─ Isso quer dizer uma pausa dos treinos?

─ Certamente...

─ Sabe que não farei.

─ Nunca tive uma paciente tão teimosa, por que vem me visitar?

─ Porque minha mãe me obriga, sei que ela gasta dinheiro comigo, então devo agradá-la.

─ Ela se preocupa com a sua saúde, e eu também.

Sabia que era verdade, que médico iria querer ver uma paciente ruim? Nenhum! Mas se os pés dela fossem retrato de seu talento na medicina, seria expulso do conselho, sem dúvida alguma.

─ Nos vemos.

Por algum motivo, sua voz parecia distante. Não gostaria de voltar ao consultório, mas por que será que sentiu uma emoção estranha ao passar pela porta? Pensou em voltar, mas aquele não era o momento certo. Ele era um dermatologista, e não psicólogo.

Fora sincera demais? Talvez, era o seu defeito mais notável. Não sabia mentir, e também não fazia questão de agradar as pessoas com falsos elogios, ele era sincero. Então por que não fazer o mesmo? Suspirou, virando duas esquinas para chegar em seu destino.
Sua casa ficava tão próxima ao consultório, que acreditava que a mãe havia escolhido aquele lugar por causa disso. Precaução. Nunca entendera, sua saúde não era de ferro, mas o máximo que pegava era um resfriado anual e olhe lá!

─ E então? Como foi?

Mal acabara de entrar, e já fora surpreendida com perguntas. Era tão estranho a maneira que a mãe se preocupava, quase doentia.

─ O de sempre, menos treino e mais medalhas perdidas.

─ Querida, seria bom se você desse uma trégua, o doutor tem razão.

─ Não, não tem. Eu vou para o treino.

─ Está ameaçando chover.

─ Se chover, tudo bem. Posso treinar “singing in the rain” como passatempo, até mais!

Passou pela porta da sala, e aquela sensação ruim voltou. Não era uma garota medrosa, mas aquilo estava começando a assustá-la, por que acontecera duas vezes seguidas e no mesmo dia? A única coisa que fez foi fechar a porta atrás de si, seriam coisas de sua coisa, estava cansada. Sabia disso, mas preferia esconder para não dar motivos por faltas.

Duas horas eram poucas para seus passos sincronizados, ela era a silhueta viva de uma estrela cadente. Rápida e precisa, contornava o ambiente como fragrância doce, recém jogada nas paredes brancas.
Com três horas sentou-se no centro do palco, olhando para os assentos de uma platéia vazia. Nunca gostara de ver aquelas cadeiras sendo ocupadas pelo ar, alguém tinha que ver o seu talento, a sua alma.

Colocou a mão dentro da mochila, retirando de lá uma caixinha de música. Era preta, entalhada de madeira com alguns contornos em relevo. Dentro, um casal de bailarinos.
Abriu-a, ouvindo a doce canção que sempre escutava antes de dormir.
Quando os bailarinos pararam de dançar, fechou-a. Voltando a colocá-la dentro da mochila, porém, esqueceu-se de fechar o zíper.
Trocou-se no camarim, como uma estrela... Sentia-se assim. Começou a descer as escadas que a levariam ao térreo, desceu rápido demais...

Um aperto forte no peito a fez parar, fechou os olhos, e mesmo que não o fizesse, seria inevitável enxergar a escuridão que a engoliu. Rolou pelo restante dos degraus, quando parou, a canção de ninar da caixinha a sua frente soou.
A textura nada delicada junto da temperatura fria do chão de mármore só a faziam ter certeza que estava começando a viajar.

Um mundo branco, roupas, paredes, lençóis e um leito. Abriu os olhos, recebendo um abraço de uma mãe desesperada. Finalmente havia acordado, seu peito ainda doía pelas descargas elétricas que recebera.
As vozes ainda estavam distantes. 

O relógio não para nunca..

Estava no palco, balançando como as penas de uma ave após receber a brisa agradável das tardes de verão, exceto por seus pés não estarem no chão, e sim pelos ares. As bailarinas do coral passavam tão perto dela, que pareciam não vê-la. Atravessaram-na, e ela era um pico de fumaça prateada, depois voltava ao estado normal. Na platéia não viu a mãe e nem o pai, os lugares estavam ocupados apenas por duas sapatilhas.

Tudo poderia ter sido diferente, se no momento em que abriu os olhos, não fosse o último que veria o mundo.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dreamer

Cientistas podem dizer que respiramos apenas gases, a maioria impuro. Mas eu conheço alguém que não respirava apenas oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, etc. Ele respirava muito mais. Quando parava de inalar a fonte de sua vida por questões obrigatórias, sentia-se doente. Fraco, como se fosse vítima de uma doença em estado terminal. Porém, assim que voltava para a sua fonte de energia, era um paciente que fora curado por sorte, e que viveria cada segundo de sua vida sorrindo.

As pessoas a sua volta não tinham dúvidas sobre qual carreira gostaria de seguir, a área não era um grande mistério. Sabiam perfeitamente que ele nascera cantando, e não chorando como a maioria das pessoas nasce.
O choro da vida. Foi o que ele soltou de sua garganta jovem.

E o tempo maravilhoso passou, de forma lenta. Os jovens não gostam quando o relógio atrasa, querem ir depressa. E já está na hora dos primeiros passos. Desajeitados, sem sincronia. Tantas vezes o chão foi testemunha de seus deslizes. Logo, as pernas ganharam equilíbrio, e com seu jeito carismático pôde dançar como sempre quis.

De dois, cresceu com o terceiro talento. Era impressionante como gostava de imortalizar o que via. Com uma sutileza mágica seu pincel dançou como seu segundo talento, e desse nasceu o terceiro. O sol radiava em pingos dourados, assim como a lua em sua aparição aos prateados, mares azulados... Adultos abismados. Ele sabia pintar.

Precisou que o tempo corresse um pouco mais, tinha tarefas como divertir-se. Era importante que cumprisse esse dever, pois sem ele, seria tão amargurado quanto os grandes que o invejavam. Sorria, um riso que afundava qualquer mágoa diária que alguém teria.
Gostava dos animais, quis ser veterinário. Começou a analisar detalhes, por textura e beleza, descobriu-se escultor. Seu quarto fora decorado, como uma selva casual.
Quando deitava a cabeça no travesseiro não fechava os olhos, ele contornava suas orbes para todos os cantos que estavam preenchidos com sua paixão.

Não era perfeito, sofreu do coração. Primeiro amou como nunca pensara que pudesse amar. Ela era tão bela quanto os sonhos de um poeta inspirado. E acreditava que essa fosse a fonte de toda sua felicidade. Enganado... quase perdeu os talentos numa tentativa frustrada de recuperá-la.
Sofreu, passou a ser companheiro das emoções. Seu rosto vermelho como nunca fora, sua alma rasgada, o coração machucado, o amor fora escondido. E agora o que restara? Raiva. Decepção. Vontade de mostrar o quanto doía perdê-la para outro alguém. E mostrou, aplaudido fora no teatro. Descobriu-se ator, nas feridas do amor.

Conseguiu esquecê-la atuando, mas quando vivia sua vida ela sempre voltava. Decidiu descontar em papéis. Todas as palavras que desciam por sua garganta, feito uísque barato que começara a ganhar forma. Um lugar melhor, a tinta sabia trabalhar. Olhou o que havia feito, era bom. Tinha um gosto de alívio misturado com orgulho. Se quisesse, a teria de volta em dois dias. Era só mandar os poemas que havia feito. Eram tão doces que fariam o castelo dos sonhos de uma pequenina formiga.

Passou a viver por si só, um dia após o outro. Anos passando, pessoas mudando, o mundo caindo, as nuvens flutuando. Sensações que eram bem vindas casualmente, outras que chegavam sem perceber, assim tão de repente.

E o garoto é tão sonhador, pois só em sonhos poderia ser quem gostaria. Dentro de uma normalidade que não pertencia a ele, jamais. O filme de sua vida fora narrado por uns, escrito por outros, mas apenas vivido por ele. Contaram-me que sua existência era frase de efeito, talvez seja! Sabemos apenas de uma coisa:



“Como a vida imita a arte”

sábado, 1 de janeiro de 2011

No wars in 2011

O que seria de nós sem algo maravilhoso que é a esperança? Podemos ver que uma pessoa totalmente amargurada é aquela que diz não esperar nada de ninguém. Aquela que foi tão magoada que hoje em dia prefere chorar de frustração do que por outro alguém. Há crianças sem esperança, como as da África por exemplo, outras ainda conseguem sorrir, pois sabem que o sol vem de qualquer forma para iluminar seus rostos feridos pela miséria.

Tantas promessas são feitas no começo do ano, e tantas quebradas no segundo dia. Promessas deveriam ser cumpridas, pois que sentido tem elas se não forem? Eu não consigo ver nenhum.
Acreditamos em pessoas que podem nos representar para o mundo, e tudo o que vemos é sujeira. Uma sujeira que para ser limpa leva anos, quem sabe décadas.
E há quem diga que existe a sujeira eterna. Marcas do passado que continuam em nosso código genético.

Realmente não vemos diferença alguma quando dá meia noite do dia primeiro de janeiro, é um fato. Além da chuva colorida de fogos, pois ela é a única que pode colorir nossas almas em uma noite especial.
Mesmo que seja demais para nossos bichinhos que temem esse barulho que não é nada agradável.

Hora de ligar para as pessoas queridas, e para aquelas distantes que não falamos hã anos. Ás vezes nos surpreendemos, outras vezes ficamos mais do que felizes de saber que essas lembram de nós.

Nesse dia de paz, alguns países deveriam se envergonhar por não saber o significado dessa bela palavra. E esta não é ambígua, é uma só.
Paz é paz, queridos. Então por que não tentamos descobrir o que ela realmente representa? Parece que o fogo já está mais do que claro para as pessoas do mundo todo. E não importa se és socialista, capitalista ou anarquista. Também não importa se é judeu, cristão, islâmico ou até mesmo ateu.
Onde está a paz que procuramos? Por que dois países que dividem o primeiro nome não podem se amar?
Oras... Homens do poder, parem com isso.

Abaixem essas armas, não explodam essa bomba, não façam as famílias morrerem aos pedaços, não façam crianças chorarem, não podem fazer os animais sofrerem com a ausência de seu dono. Porque eles são tão fieis... Acho mais do que justo pedir isso ao mundo.


"Talvez sem o brilho das armas, o sol possa voltar a brilhar,
e ser o rei do universo para quem precisa dele."