sábado, 5 de fevereiro de 2011

When a ghost is alive

No passado ao olhar as janelas, víamos pássaros, aviões e pessoas pulando de pára quedas. Hoje, só podemos ver os carros, e alguns acidentes envolvendo máquinas e nuvens cinzas.
A tecnologia cresceu tanto que algumas profissões simplesmente morreram como os velhos idiomas.
Hoje o mundo fala apenas uma língua, que é a mistura de todas. Foi uma forma de tentar unir as nações, que nem sempre deu muito certo.
Tudo estava diferente, as pessoas tentando cada vez mais passar de um nível de inteligência para outro superior.
Eram poucas as pessoas que não tinham noção alguma, e eu era uma delas ao ver dos homens de branco a minha frente.

─ Você tem certeza que quer isso? Pode afetar tudo o que conhecemos. Existe um filme que relata isso.

Segurei um riso para não parecer tão insensível. Era óbvio que estavam preocupados, mas para mim não era nada a não ser uma tentativa de ter meu mundo de volta.

─ Vocês me trouxeram pra cá  por um erro, temos que concertar isso.

─ Mas você quer voltar bem antes de onde a tiramos.

─ Eu preciso arrumar algumas coisas. É importante.

─ Não pode alterar... Seria...

─ Loucura. Já sei. Mas eu preciso, tudo bem? Preciso avisar as pessoas do que as esperam, entendam.

─ Vai comprometer o nosso futuro.

─ Um dia irão me agradecer. Agora vamos logo com isso!

Despediram-se.

O túnel a engoliu de forma aterrorizante. Não sabia se sentia dor, ardência, medo, pavor, ou alegria por estar na época certa de seus desejos mais íntimos.
Caiu em um bosque confortável. Deu graças aos amigos por terem tido o cuidado de usar a grama como cama provisória.
Arrepiou-se ao ouvir outro idioma, e aquele lugar... Estava frio, algumas lojas já possuíam grandes pinheiros para o Natal.
Um Natal que poderia ser normal ou não.

─ Você está bem? ─ Uma garota de cabelos loiros estendeu a mão para me levantar. Seu estilo era da época, e por dois segundos, eu me senti fora do contexto.

─ Estou, obrigada. Foi só uma tontura.

─ É a emoção, não é? Já vi pessoas passando mal hoje, várias delas. Tudo por causa dele, mas é natural. 

Um aceno de janela já é o suficiente para um AVC.

─ Ele quem?

A garota fitou-me curiosa, estudou o meu rosto, e depois minhas mãos. Ela queria ter certeza se eu não iria cair novamente.
Enquanto ela fazia um check up em mim, eu olhei a minha volta. Paralisada.
Pessoas segurando discos, livros, camisetas, lágrimas.
A emoção de estar no lugar que eu nunca estivera, e ter a sensação de que eu sabia de algo.

─ Pode me dizer que dia é hoje?

─ Oito de dezembro.

Congelei. Teria que agir naquele dia mesmo. Eram oito horas da manhã, e meu corpo parecia extremamente cansado.

─ Preciso de um café.

O líquido negro tinha um gosto nostálgico, era cativante estar ali. Não entrei na cafeteria, precisava ter foco.
Julie queria saber de onde eu era, o que eu fazia lá e o motivo por aparentar estar cansada.
Menti. Inventando histórias de prontidão. Ela poderia me agradecer mais tarde.

Nos despedimos, e eu sabia que jamais voltaria a vê-la.

Meu coração saltou quando avistei um rapaz com um livro nas mãos, este sim possuía mãos trêmulas, quem sabe na mesma freqüência que as batidas de meu coração?

─ Será que você poderia me emprestar a caneta?

─ Claro.

Sua voz soou como pedras em meu estômago. Ele havia falado comigo, ele havia sido gentil, mesmo que eu soubesse que sua cabeça estava muito longe daquele pedido casual.

─ Mark, não é?

Suas costas permaneceram rígidas, pareceu uma eternidade o intervalo de tempo em que ele virou de frente pra mim.

─ Como sabe?

─ Simplesmente sei. E não é só isso, eu sei de muito mais. Não acha que cinco balas são fatais? Essa arma não é digna de quem é tão devoto a Deus.

Olhos apavorados me fitavam, eu podia saber o que passava em sua cabeça agora.

─ Não sou uma alucinação, e nem um anjo que veio te salvar. Em partes vim salvar alguém, mas não é você.

─ Está me enganando.

─ Ah, é? Contou para mais alguém que pretende matar John Lennon hoje por causa de um livro e de vozes que mandam em você?

─ Você não existe.

Soquei seu ombro com força, ele cambaleou para trás, irritado.

─ Abra os olhos. Você está doente.

Ele ainda não havia se conformado que seus segredos já não eram tão secretos. Engoli em seco levando a mão ao bolso esquerdo, de lá, tirei uma foto que havia pego na internet. Mostrei à ele, junto com um jornal amassado do The New York times.

─ Não...

A foto do corpo de Lennon em um necrotério foi o suficiente para ele ganhar o aspecto de um fantasma. A data do jornal com a matéria publicada e ao centro, uma foto de Mark manchada com todo aquele crime bárbaro.

─ Você nunca mais vai sair da cadeia.

─ Ninguém vai acreditar em você.

Abri outro jornal, este com uma data de mais de vinte anos à frente.

─ Vê? Ele vai morrer disso porque não conseguiu suportar a dor da perda do parceiro. Quer matar inocentes? Quer saber quantos jovens irão cometer suicídios só nesta semana? O céu nunca será o teu lugar.

Mark chorou. Abraçando-me tão desesperado que senti remorso por querer lançar uma faca em suas costas.

─ Eu não consigo parar.

Sua voz ficou distante quando vi um rosto cheio de vida numa janela alta. Ele parecia tão feliz, tão distinto. Tão nobre...
Eu sabia que nada adiantaria, me senti culpada.

O calar da noite veio, e Mark continuava a perambular pelo Edifício Dakota. O vigia informava-lhe as horas sempre, e ele parecia estar irritado com isso.
Uma angústia invadiu meu corpo como nunca sentira antes. Era trágico esperar pelo fim.
Havia uma porta nos fundos destrancada. Foi sorte. Entrei, sendo barrada por um segurança,

─ Vocês não desistem mesmo, hein?

Eu o fitei com uma amargura enorme. Seus olhos verdes perderam-se em minha íris marejada.

─ Eu juro pra você que não quero nada, só não deixe John sair do edifício. Por favor. Mantenha-o aqui, prenda-o.

O jovem não era tão alto, mas por eu ter menos de um metro e sessenta, parecia monstruoso. Não tinha mais do que vinte e três anos, ele me soltou.

─ Por quê?

─ O cara que o espera está armado, ele dará cinco tiros nas costas de Lennon dentro de uma hora.

Li o nome em seu uniforme, era Hector.

─ Tem provas?

Joguei a foto e os dois jornais na cara dele, voltando a chorar como uma garotinha.

─ De onde você veio?

─ Do tempo, do céu, do inferno. Pare de tentar causar a morte quando estou tentando evitá-la.

Hector me puxou pela cintura, acompanhando os olhos na foto de Mark. Eram iguais.

─ Acredito em você. Vou te deixar entrar.

─ Pra quê?

─ Tenho um plano.

Arrisquei. O que restaria, afinal de contas? Subi algumas escadas, caminhando por corredores e paramos em um gabinete.
Eu o avistei, cerca de dois metros de distancia apenas. Ele olhou para Hector, e depois para mim.

─ Hm, o quê foi?

─ Senhor, essa senhorita precisa falar algo urgente.

─ Autógrafo? Eu a vi lá fora, Hector... Você não pode trazer garotas aqui só porque as achou bonitas...

─ Eu não quero nada. Eu só quero salvar a sua vida. Mas que droga!

Yoko apareceu a nossa frente, confusa com tudo.

─ Por que choras, querida?

Entreguei os papéis à ela, não era o bastante.

─ Pagou quanto ao jornal para publicar isso?

Respirei fundo, entregando a foto que os calaria. Yoko soltou um grito, os jornais caíram.

─ Eu nunca tirei uma foto assim em toda a minha vida, amor.

John olhou-me nos olhos, eu chorava tanto que sua imagem ficara embaçada. Devolveu-me os papéis, demonstrando preocupação.

─ George é um sacana por fumar mesmo.

─ Senhor, acho que podemos saber se ela está falando a verdade.






Cinco disparos, gritos, um corpo caído.



Estava falando a verdade? Sim, estava. E para os olhos do assassino, sua vítima levantou, olhando-o com desprezo.

─ Acha mesmo que meu último autógrafo seria para você?

Balas não atravessam coletes a prova delas, balas jamais poderiam entrar em contato com uma vítima que fora avisada. E o destino dele era o mesmo, trancafiado para sempre.

Eu havia avisado.

E como se nada acontecesse, tudo fora mistério. John declarara ter tido um sonho com alguém o avisando sobre a possível fatalidade.
 Ninguém lembrava de meu rosto. Apenas um.

─ Vou te ver de novo?

─ Não sei, talvez eu o veja velho. Mas sei que irá lembrar desse segredo.

Abraçou-me, como se sentisse uma saudade enorme. Beijou-me logo em seguida, voltando seus olhos tão verdes para os meus.

─ Prometo jamais esquecê-la.

A dor novamente chegou, e parecia não doer tanto por ser conhecida.

Abri os olhos ouvindo uma canção na voz de um sobrevivente. A letra parecia distante, ainda estava embriagada com o sono, mas um trecho pude captar:



Sonhei tão acordado que um anjo eu olhei, 
dizendo-me coisas das quais duvidei, 
ela tão paciente mostrou-me a prova, 
e eu tão inconsciente arrisquei-me com a cova.
Ela sumiu depois que sobrevivi, estaria ela 
ouvindo esta canção em algum lugar? 
Obrigado, querida. 
És a garotinha que sempre irei recordar...”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

You're my favorite color

A vida sempre fora comparada aos jogos de tabuleiro. Onde o mais inteligente, que possuir uma estratégia melhor, conseguirá chegar ao outro lado. Um lado de vitórias, caminhos claros e finais melhores do que o jogador espera.
Há algum tempo atrás eu pensava que essa comparação era concreta. Mas como de costume, não vejo que algumas certezas tenham somente o lado certo.
Em um jogo de tabuleiro, por exemplo, as nossas peças podem atrapalhar uma jogada perfeita, porque ocupam aquele lugar que deveríamos guardar, mas que fora usado sem pensar direito.
Isto não é culpa de nosso adversário, é nossa. Só que é tão fácil culpar quem está a nossa frente, levando vantagem em absolutamente tudo, e mesmo assim, com aquele sorrisinho de canto que diz muita coisa quando seus olhos piscam com a mesma freqüência de um flertador de pôquer.

Jogos são jogos, e nunca sinônimos de piedade. Nos jogos você pode matar sem remorso, pois não custa nada. Tem gente que arrisca demais, arrisca esse jogo de verdade e acaba esquecendo que não somos feitos de plástico e nem de chumbo, que essas meras peças tem sentimentos, tem pensamentos e principalmente: Tem consciência dos próprios atos.
Uma frase relativa se quer a minha opinião, pois há tantos que fazem e decidem fugir para longe... O longe que acaba sendo o lugar dos prisioneiros da própria liberdade.

Hoje, não vejo as pessoas como peças. As vejo de modo totalmente diferente, cada uma é uma. E por mais parecidas que possam ser jamais serão iguais. Não há maneira de fazê-las terem os mesmos pensamentos.
Até a genética dá a sua ajuda em meu argumento tão simples, não?

Nunca seremos iguais...

Essa falta de igualdade é confundida, e por demência acabou sendo o palco principal de tragédias... Porque alguns jamais serão iguais, e se não tivermos uma ordem certa, o que será de nós?
Falta arriscar... Quem gosta tanto de arriscar, onde esteve nesse tempo? Por que não disse para nunca começar o que viria a ser algo terrível? Pobres diferentes... Distintos, sofredores, alguns vencedores.
Porque muitos perderam, porém, outros ganharam, ganharam a vida outra vez.





“A vida é como uma aquarela cheia de borrões. Por mais que o vermelho pareça com o cor de rosa forte, ele jamais deixará de ser o velho vermelho. Às vezes o azul vira verde, o verde azul, porém, sempre saberemos quem é o original.Nós somos as cores. A vida é como uma aquarela variada, porque as coisas simples, como a tinta, é que dão forma as mais belas obras de arte de nosso cotidiano.”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

My face is my crime

“Eu fui preso por um crime que não cometi. Apareci em um lugar errado, numa maldita hora que fez com que minha vida terminasse junto de minha liberdade. Onde está a justiça? Enquanto o serial killer mata pessoas a todo instante, eu estou aqui. Preso em uma jaula, pareço um animal, sou tratado como um, e ninguém está dando a mínina para o que eu sinto. Porque assassinos não sentem, e pelo visto, nem os seus semelhantes.”

Outono é o tempo em que as folhas começam a cair. Todas morrem, assim como nós. Talvez estas tenham morrido por amor, apaixonam-se no verão, e quando não são correspondidas, morrem. Amor de verão. Quem nunca teve um? O clássico das comédias românticas, com aqueles atores que tem a química certa que o diretor procura.
As pessoas sabem o que vem depois, e mesmo assim não deixam de ver.

Mas quem irá ver a sua comédia romântica? Você tem uma? Ela transformou-se em drama? Ou você não vive em um filme de Hollywood?

Os atores principais sofrem do começo ao fim, a vida não é uma peça teatral. Ela é o reflexo dos ensaios. Tudo, absolutamente tudo pode acontecer quando as cortinas abrem. Porque essas cortinas são as portas que procuramos, as portas das quais um dia também irão se fechar.

─ Você está preso.

Prisão. Vivemos presos na infância, no colégio e no trabalho. Talvez, um dia em algum asilo. Nunca teremos uma liberdade concreta. Por isso a frase: “Cair na estrada” soa tão cobiçada pelas pessoas.

─ Por quê? Eu não fiz nada.

A mesma frase. Quando ouvimos o: “Eu preciso falar com você” logo pensamos que não fizemos nada. Mas fizemos, pois se não tivéssemos feito, não pensaríamos nisso logo de cara.

─ Diga isto para a vítima, ela o reconheceu.

Como? A dúvida é uma neblina que nos atormenta, amedronta e tira nosso sono. Quem dorme na neblina? A neblina da viagem que um dia faremos. A neblina dos corpos machucados que pairam sob o ar. A neblina do crime que insiste em ficar.

─ Mentira.

A única coisa que machuca, que fere, que dilacera, que mente. A mentira mente. Mente para a alma e para o coração.

─ É ele. Ele quem fez isso comigo.

A confusão de pensamentos que começam a nascer. Teria ele feito o que ela diz que ele seria capaz de fazer? Não, não conseguia se lembrar. Mas bebera em uma festa, talvez alguém o drogou? Como negar algo que não se tem certeza? E se realmente fizera? Se ela estivesse falando a verdade? O reconhecera. Vira seu rosto com horror, os olhos cheios de rancor, dor, quanta falta de amor.

─ Culpado.

As leis são claras, como as leis da natureza. Apesar de o homem interferir tanto no mundo, não há como parar de ter sede pela justiça. A viagem vai começar. Mesmo depois de sentir uma agulha perfurar a pele que julga ser mal lavada, ouviu uma voz em sua cabeça.
Muito clara. Soava como uma melodia que ouvira uma única vez na vida, ainda na infância.

"Os relógios são traiçoeiros, as pessoas não sabem analisar. Quando a noite vem, as pessoas malvadas começam a brincar. Brincam com o prazer, levitam em plenos pensamentos conspiratórios. Os crimes acontecem, e as pessoas começam a chorar.
Lágrimas de vítima, lágrimas de gente culpada, lágrimas de pessoas que encontram algumas almas rasgadas. Outras perdidas por não saberem o motivo ao certo. Não sabemos. Mas algo é notável. No mundo inteiro, em cada continente, em cada ilha e em cada geleira há pessoas com nossos rostos sem grau de parentesco. O sétimo número é aquele que diz ser o certo. Há sete faces, sete almas, sete corações e sete pessoas convincentes. Mas por onde você andou? Agora é tarde, pois não pode provar que das sete faces, és o sexto inocente."
   

sábado, 22 de janeiro de 2011

Take a wash


Eu costumava fazer algo todos os dias, e não me refiro às brincadeiras de rua que adorava na infância. Falo das vezes que a sujeira entrava em mim, e que por desejo de meus pais, ela teria de sair.
Um banho... Oh, como era chato tomar banho. Que perda de tempo, pensei durante vários anos. Vários? Todos! O sol veio e foi embora centenas de vezes, e eu ainda odiava aquele maldito chuveiro.

 Depois me acostumei, afinal de contas, acabei crescendo. Não sou como os desenhos que permanecem intactos, não envelhecem, e quando isso acontece, sempre há uma fonte da juventude para fazer tudo ser como era antes. Eu não tenho uma fonte como essa, gostaria tanto... Fazer algo diferente, retribuir o que deveria. Mas o que me resta é conviver com tudo isso. Pelo menos é o que eu esperava até meus vinte anos.

─ Vocês têm certeza?

─ Sim, você merece. Acabou de se formar, seu emprego está ótimo, precisa relaxar. Tire essas férias, conheça alguns lugares.

Abracei essa oportunidade, quem recusaria um transatlântico saindo de um país e indo para o outro? Acho insano só de pensar nessa possibilidade.

─ Ok! Mandarei fotos. Eu prometo, venham cá!

Tinha a melhor família do mundo, e eu sabia disso.

As gaivotas voavam e em segundos eu soube que não eram gaivotas, e sim cisnes. Tão brancos quanto à paz que aquele lugar poderia me dar. A beleza de um cisne só poderia ser comparada ao sorriso sincero de um amante apaixonado fazendo sua arte ter vida.
Voaram com mais velocidade quando os motores foram ligados. Era mais admirável ter cisnes a sua volta do que nuvens. As nuvens podem ser fofas, mas você jamais poderá tocar em uma, mesmo que seu coração chore por tal ato.

O vento era tão refrescante que senti frio, muitos homens ao meu lado davam seus casacos para as moças, por egoísmo senti felicidade por não ter de fazer aquilo.
A única imagem feminina que tinha em minha frente era a de uma cadela de um senhor que dormia em sua cadeira.

O brilho do horizonte inspirou-me a desenhar, foi o que fiz. Comecei a traçar linhas leves, tão leves que mal podia enxergar. Alguma forma havia chamado minha atenção. Aquela régua natural, dividida com as mais belas cores do universo, cores de íris jamais vistas no mundo. Olhos de anjos, curvas superiores as estradas mais alucinantes que poderiam existir. Um retrato fiel ao por do sol.

─ Belo rascunho.

Olhei para o lado, notando um homem. Era um pouco mais alto que eu. Em sua cintura? O brilho da morte certa.

─ Eu não tenho nada aqui comigo, só na cabine. Podemos ir lá...

─ Eu não quero nada seu, vou ter bastante. É o seguinte, não quero ficar de papo furado com você. Eu vou seqüestrar esse navio, tenho contas a acertar com o capitão, não sei o que pode acontecer com os passageiros e não é da minha conta, meu pessoal não costuma poupar ninguém.

Absorvi cada palavra, esperando que a minha agonia fosse dilacerada com uma bala de prata cheia de ódio, pronta para me acertar. Ele então continuou.

─ Minha irmã era pintora, era capaz de pintar os segredos de uma pessoa vendo-a por minutos. Não posso matar alguém que se pareça com ela, eu quero que você pule.

─ O quê?

─ Você me ouviu, pule do navio agora, mas não fale nada. Nunca tivemos essa conversa, entendido?

─ O que vai acontecer com todas as pessoas?

O homem de aparência psicótica olhou-me com um sorriso demoníaco nos lábios. Lábios infelizes que curvavam para demonstrar o seu poder de persuasão.

─ Irão morrer.

Eu não poderia fazer isso, deixar tudo para trás só porque aquele homem insano acha que sou a irmã dele de alguma maneira. Abri a boca para protestar, mas som algum saiu.
O tempo que tive consciente foi de dor e queimação, meus olhos arderam, meus ossos trincaram. Vários deles, eu pude sentir. Leucócitos trabalhando em conjunto, deveria ser uma fratura...

Tempestade... Flutuei em uma banheira gigantesca onde o sal era meu pior inimigo. Tanto gosto que minha garganta queimava como a saliva de um doente em estado crítico.
Sorte ou pena? O perigo raspou em minhas costas, presas roçaram em minha pele, mas nada me aconteceu.

Quando abri os olhos e vi por inteiro aquele quarto branco, soube que quase morrera.
Mas eu não me lembrava de nada, o que aconteceu?

─ Você sobreviveu a uma explosão. O navio explodiu, mas você estava admirando o horizonte, e com o impacto caiu no mar. Quebrou duas costelas com a queda.

─ Quebrei com a queda? Estranho, lembro-me de sentir dor antes de cair...

“Picos de memória são normais, mas não reais” Foi o que a enfermeira disse.

Doce verdade? Fria mentira? O que é mais torturante do que passar seis anos sem saber como sobrevivera? Sem testemunhas? Ninguém?

Nenhuma seqüela física, por sorte. Os médicos acharam que tudo estava resolvido até eu encarar meu monstro particular. Furos... Agulhas no lugar de água, o chão que sangrava. As paredes que me prensavam.
Como uma câmara de tortura, cabine telefônica disfarçada casualmente.

Não posso encarar o quão ridículo soa isso. Quero tomar um banho de justiça, de felicidade, de lembranças melhores, de aves encantadoras.

Quero me livrar dos medos, da dor, da burocracia e do acerto de contas.



“Eu quero tomar um banho especial.
                 Que a água seja prateada, e as bolhas ousadas.
                                                  Numa fórmula maternal, exemplo de superação pessoal...”

sábado, 15 de janeiro de 2011

Selfish


Sou um assassino. Minha saliva é pobre em ph, minha vida é roteiro de Stephen King. Ele morreria se soubesse o que eu ando fazendo. Frio e calculista, todos os dias são sexta-feira treze para mim. É meu dever ver o sofrimento das pessoas, e mesmo assim, sentir-me vivo. Realizado, porque a causa é aquela que eu mais gosto e admiro.
Se ela morreu envenenada com um perfume, eu jamais deixaria de comprá-lo, eu o colecionaria.

Mente doentia, sutileza perdida, nada fantasiosa. Está tudo real, tão real que meus sonhos parecem ter desistido de invadirem minha cabeça. Posso controlar a dor que deveria estar sentindo, não sinto. As lágrimas que poderia estar derrubando, não choro. O amor que tenho pela fúria? Preservo.
Não sou culpado, fui vítima do amor. Esse sentimento que possuí triplas camadas de péssimas intenções

Meu café amargo é tão amante de meus lábios, que mesmo quando os queima, sinto-me em êxtase.
Embriaguei-me da angústia, meu cheiro é de cachorro molhado em dias de tempestade.
Tenho pulgas de preocupações, e muitas delas estão quebrando minha cabeça.
O anoitecer nunca deixará de ser o que venero, enquanto é pavor para quem não pode dormir.
Eu posso dormir, usufruindo de toda a minha luxúria em forma de sobrenome.
O que você tem hoje para mim? Decotes? Batom provocante? Cabelos molhados?
Essa água que me instiga tanto...

Desculpe, querida. Estou esquecendo de você, mas é que a outra sabe o que fazer. Pode ir embora hoje, vou aproveitar as visitas, quem sabe ela resolva morar comigo.
Não adianta usar esse truque, orbes molhadas não vão me excitar.
Ela já foi? Você não vai parar, vai? Continue, baby. Você sabe que se continuar, irá me deixar exausto de satisfação.

O ápice não é o bastante, sabemos disso. Ouvi dizer que as pessoas te maltrataram, falaram que és tão maldita que acabou com a vida delas. Não ligue! Se está aqui, é porque me ama, não? Ah, eu a amo. Farei qualquer coisa por você, para vê-la sorrir todos os dias. Estou adormecendo mais fácil com você aqui, fique para sempre.

Quem se importa se está chovendo sangue?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dance like an angel

Nunca fora receptora da frase: “muito bela”. Seus encantos eram outros, distintos daquilo que a maioria procurava. Dançava como o balançar do vinho livre pela taça.
A sutileza em suas sapatilhas faziam-na esquecer dos ferimentos freqüentes que possuía. Todos adquiridos com esforço, como se fosse medalhas por seu desempenho. Respirava por movimentos, e quando os realizava sentia-se completa.

─ Você é uma masoquista, sabia? Há artes que não acabam com seus pés

Ela sorriu, olhando bolhas de dor e trabalho que ganhara diariamente.

─ Não preciso ser um pássaro bonito se souber voar, e eu sei.

O Dr. Eduardo virou de costas, de volta à sua mesa de trabalho, escondendo um sorriso que queria contornar seus lábios.

─ Semana que vem quero ver essa pele renovada, pode ser?

─ Isso quer dizer uma pausa dos treinos?

─ Certamente...

─ Sabe que não farei.

─ Nunca tive uma paciente tão teimosa, por que vem me visitar?

─ Porque minha mãe me obriga, sei que ela gasta dinheiro comigo, então devo agradá-la.

─ Ela se preocupa com a sua saúde, e eu também.

Sabia que era verdade, que médico iria querer ver uma paciente ruim? Nenhum! Mas se os pés dela fossem retrato de seu talento na medicina, seria expulso do conselho, sem dúvida alguma.

─ Nos vemos.

Por algum motivo, sua voz parecia distante. Não gostaria de voltar ao consultório, mas por que será que sentiu uma emoção estranha ao passar pela porta? Pensou em voltar, mas aquele não era o momento certo. Ele era um dermatologista, e não psicólogo.

Fora sincera demais? Talvez, era o seu defeito mais notável. Não sabia mentir, e também não fazia questão de agradar as pessoas com falsos elogios, ele era sincero. Então por que não fazer o mesmo? Suspirou, virando duas esquinas para chegar em seu destino.
Sua casa ficava tão próxima ao consultório, que acreditava que a mãe havia escolhido aquele lugar por causa disso. Precaução. Nunca entendera, sua saúde não era de ferro, mas o máximo que pegava era um resfriado anual e olhe lá!

─ E então? Como foi?

Mal acabara de entrar, e já fora surpreendida com perguntas. Era tão estranho a maneira que a mãe se preocupava, quase doentia.

─ O de sempre, menos treino e mais medalhas perdidas.

─ Querida, seria bom se você desse uma trégua, o doutor tem razão.

─ Não, não tem. Eu vou para o treino.

─ Está ameaçando chover.

─ Se chover, tudo bem. Posso treinar “singing in the rain” como passatempo, até mais!

Passou pela porta da sala, e aquela sensação ruim voltou. Não era uma garota medrosa, mas aquilo estava começando a assustá-la, por que acontecera duas vezes seguidas e no mesmo dia? A única coisa que fez foi fechar a porta atrás de si, seriam coisas de sua coisa, estava cansada. Sabia disso, mas preferia esconder para não dar motivos por faltas.

Duas horas eram poucas para seus passos sincronizados, ela era a silhueta viva de uma estrela cadente. Rápida e precisa, contornava o ambiente como fragrância doce, recém jogada nas paredes brancas.
Com três horas sentou-se no centro do palco, olhando para os assentos de uma platéia vazia. Nunca gostara de ver aquelas cadeiras sendo ocupadas pelo ar, alguém tinha que ver o seu talento, a sua alma.

Colocou a mão dentro da mochila, retirando de lá uma caixinha de música. Era preta, entalhada de madeira com alguns contornos em relevo. Dentro, um casal de bailarinos.
Abriu-a, ouvindo a doce canção que sempre escutava antes de dormir.
Quando os bailarinos pararam de dançar, fechou-a. Voltando a colocá-la dentro da mochila, porém, esqueceu-se de fechar o zíper.
Trocou-se no camarim, como uma estrela... Sentia-se assim. Começou a descer as escadas que a levariam ao térreo, desceu rápido demais...

Um aperto forte no peito a fez parar, fechou os olhos, e mesmo que não o fizesse, seria inevitável enxergar a escuridão que a engoliu. Rolou pelo restante dos degraus, quando parou, a canção de ninar da caixinha a sua frente soou.
A textura nada delicada junto da temperatura fria do chão de mármore só a faziam ter certeza que estava começando a viajar.

Um mundo branco, roupas, paredes, lençóis e um leito. Abriu os olhos, recebendo um abraço de uma mãe desesperada. Finalmente havia acordado, seu peito ainda doía pelas descargas elétricas que recebera.
As vozes ainda estavam distantes. 

O relógio não para nunca..

Estava no palco, balançando como as penas de uma ave após receber a brisa agradável das tardes de verão, exceto por seus pés não estarem no chão, e sim pelos ares. As bailarinas do coral passavam tão perto dela, que pareciam não vê-la. Atravessaram-na, e ela era um pico de fumaça prateada, depois voltava ao estado normal. Na platéia não viu a mãe e nem o pai, os lugares estavam ocupados apenas por duas sapatilhas.

Tudo poderia ter sido diferente, se no momento em que abriu os olhos, não fosse o último que veria o mundo.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dreamer

Cientistas podem dizer que respiramos apenas gases, a maioria impuro. Mas eu conheço alguém que não respirava apenas oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, etc. Ele respirava muito mais. Quando parava de inalar a fonte de sua vida por questões obrigatórias, sentia-se doente. Fraco, como se fosse vítima de uma doença em estado terminal. Porém, assim que voltava para a sua fonte de energia, era um paciente que fora curado por sorte, e que viveria cada segundo de sua vida sorrindo.

As pessoas a sua volta não tinham dúvidas sobre qual carreira gostaria de seguir, a área não era um grande mistério. Sabiam perfeitamente que ele nascera cantando, e não chorando como a maioria das pessoas nasce.
O choro da vida. Foi o que ele soltou de sua garganta jovem.

E o tempo maravilhoso passou, de forma lenta. Os jovens não gostam quando o relógio atrasa, querem ir depressa. E já está na hora dos primeiros passos. Desajeitados, sem sincronia. Tantas vezes o chão foi testemunha de seus deslizes. Logo, as pernas ganharam equilíbrio, e com seu jeito carismático pôde dançar como sempre quis.

De dois, cresceu com o terceiro talento. Era impressionante como gostava de imortalizar o que via. Com uma sutileza mágica seu pincel dançou como seu segundo talento, e desse nasceu o terceiro. O sol radiava em pingos dourados, assim como a lua em sua aparição aos prateados, mares azulados... Adultos abismados. Ele sabia pintar.

Precisou que o tempo corresse um pouco mais, tinha tarefas como divertir-se. Era importante que cumprisse esse dever, pois sem ele, seria tão amargurado quanto os grandes que o invejavam. Sorria, um riso que afundava qualquer mágoa diária que alguém teria.
Gostava dos animais, quis ser veterinário. Começou a analisar detalhes, por textura e beleza, descobriu-se escultor. Seu quarto fora decorado, como uma selva casual.
Quando deitava a cabeça no travesseiro não fechava os olhos, ele contornava suas orbes para todos os cantos que estavam preenchidos com sua paixão.

Não era perfeito, sofreu do coração. Primeiro amou como nunca pensara que pudesse amar. Ela era tão bela quanto os sonhos de um poeta inspirado. E acreditava que essa fosse a fonte de toda sua felicidade. Enganado... quase perdeu os talentos numa tentativa frustrada de recuperá-la.
Sofreu, passou a ser companheiro das emoções. Seu rosto vermelho como nunca fora, sua alma rasgada, o coração machucado, o amor fora escondido. E agora o que restara? Raiva. Decepção. Vontade de mostrar o quanto doía perdê-la para outro alguém. E mostrou, aplaudido fora no teatro. Descobriu-se ator, nas feridas do amor.

Conseguiu esquecê-la atuando, mas quando vivia sua vida ela sempre voltava. Decidiu descontar em papéis. Todas as palavras que desciam por sua garganta, feito uísque barato que começara a ganhar forma. Um lugar melhor, a tinta sabia trabalhar. Olhou o que havia feito, era bom. Tinha um gosto de alívio misturado com orgulho. Se quisesse, a teria de volta em dois dias. Era só mandar os poemas que havia feito. Eram tão doces que fariam o castelo dos sonhos de uma pequenina formiga.

Passou a viver por si só, um dia após o outro. Anos passando, pessoas mudando, o mundo caindo, as nuvens flutuando. Sensações que eram bem vindas casualmente, outras que chegavam sem perceber, assim tão de repente.

E o garoto é tão sonhador, pois só em sonhos poderia ser quem gostaria. Dentro de uma normalidade que não pertencia a ele, jamais. O filme de sua vida fora narrado por uns, escrito por outros, mas apenas vivido por ele. Contaram-me que sua existência era frase de efeito, talvez seja! Sabemos apenas de uma coisa:



“Como a vida imita a arte”