sábado, 7 de julho de 2012

Lucky drummer

─ Ei, ei. Você é muito talentoso. Não ligue para elas.
─ Fácil falar isso. Você é tão adorado por elas que essas meninas te dariam até a virgindade se pudessem embalar em uma caixa.
─ Opa! Eu gosto desse tipo de caixa.
─ Para, John. Estou tentando animar ele.
─ Pelo amor, Paul. Elas vão adorar esses olhinhos claros quando o ódio delas sumirem.
─ Nisso eu concordo. O Pete nem era tão bonito assim.
─ E qual é teu conceito de beleza, George?
─ Meu espelho.
─ Hahahaha, tá se achando!
─ Sério. Sou tão bonito que se eu tiver um filho, ele será igual a mim. E você vai se assustar quando for tocar com ele, McCartney.
─ Nos seus sonhos, George. Hahaha.
─ Pelo menos você tem boas piadas, Ringo. E se não funcionar, a cada risadinha não dada, uma menina pode escolher um anel seu.
─ É mesmo!
─ Verdade!
─ Não! Para, eu não vou dar meu anel pra elas.
─ Então dá pra mim?
─ JOHN CALA A BOCA!
─ Hahaha, é só uma gracinha Paul, ai ai!
─ Vou fazê-las gostarem de mim pelo meu talento mesmo. Eu já tenho sorte. Que ela ande ao meu lado, então.

E andou até hoje, não é mesmo?

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Be brave


Se ele fosse um lunático, que mal teria? A Lua é tão admirável que desprezar seus tão sonhadores habitantes, parece muito contraditório, não?

─ Querido, feliz aniversário! Suas nobres tias da Escócia lhe mandaram presentes!
─ Obrigado, mãe. É mesmo? Vou ligar para elas agradecendo assim que voltar.
─ Muito bem, agora vá. Seus amigos estão te esperando. 
─ Ok, tchau.
─ Tchau, meu amor!
─ Bom dia, senhor.
─ Bom dia, meu rapaz.
─ Bom dia, senhora.
─ Bom dia, filho! Ah, esses jovens quando sentam ao nosso lado, mal olham nossa cara. Sua mãe te criou bem!
─ Obrigado, senhora.
─ Que gracinha!

Dentro de todas as normalidades, tudo estava no plano de rota. E as coisas eram boas assim, mas a gente sempre espera por algo novo, não é? E acreditem ou não, pode ser bem surpreendente.

─ Eu vou descer.
─ Mas não é a sua parada, menino.
─ Não importa, eu vou descer assim mesmo.
─ SENHOR! SENHOR!
─ Mas pra quê tanta gritaria, meu Santo Deus?
─ De onde ele vem?
Isso aí?
─ Sim, senhor. De onde?
─ Ah. Comprei em um leilão. Mas não presta! Tem medo das pessoas, atacou vários espanhois.
─ Ele veio da Espanha?
─ Sim, das grandes touradas! Mas acabou se escondendo e o antigo dono não quis mais!
─ E teve mais?
─ Que nada! Todos viraram troféu.
─ Quanto pagou por ele?
─ Olha, moleque... Eu não vou vender ele. Deu trabalho pra mandar trazer! 
─ Quanto pagou por ele, senhor?
─ Duzentos euros.
─ Eu compro.
─ Eu não estou vendendo.
─ Eu compro do senhor por quinhentas libras.
─ E você lá tem quinhentas libras na sua casa?
─ Em casa não, mas no meu bolso. Toma.
─ De onde você tirou?
─ Minhas tias me deram.
─ E por um acaso você é rico?
─ Não. Elas moram na Escócia. Casaram com condes.
─ E por que te deram todo esse dinheiro?
─ Pelo meu aniversário.
─ E você vai gastar tudo com isso aí? Não deveria estar comprando roupas, sapatos ou coisas assim?
─ Não. Eu deveria gastar com o que achasse melhor. Então, temos um acordo?
─ Pense bem, não vou lhe devolver o dinheiro!
─ E nem eu o touro!

─ Por que você demorou tanto? Achei que íamos ver aquelas guitarras!
─ Você tem alface aí?
─ Aqui? Em casa? Por quê? Você não almoçou?
─ Almocei, o coragem que não almoçou!
─ Quem?
─ O Coragem, George. Eu não sei o que dar para ele...
─ Quem é Coragem, Paul?
─ Meu presente!
─ Mas que...
─ Olha.
─ VOCÊ.... Comprou um touro?
─ Comprei. O antigo dono dele era rude.
─ E como devem ser? Deus, Paul! Sua mãe vai te matar.
─ Por quê? Ela disse que eu poderia comprar o que eu quisesse.
─ Mas se você queria um animal, por que não comprou um cachorro ou adotou?
─ É que o dono dele estava incomodando o Coragem. Ele passou por muita coisa já.
─ Ai, ai. Acho que tenho alface na geladeira.
─ Maravilha, Ge! Você é demais!
─ Ouviu, Coragem? O almoço tá pronto!

E Coragem viveu tão feliz, que passou a média de seus descendentes espanhóis. Todos os dias demonstrava gratidão. E o menino de expressão serena, amou o seu presente como nunca amara outro. Era seu aniversário e sabia que tinha alguém para comemorar.



sábado, 9 de junho de 2012

Old book, same history

Se a música é a nossa alma sonora, notas fracas e letras sem nexo seriam para os desalmados?

É muito comum entrar dentro de um ônibus e escutar um som esquisito ou irritante em plena manhã de segunda feira. Isso só faz com que a nossa viagem seja mais longa, e até nos esquecemos de que há imagens lá fora. Realmente há! Mas quem é que consegue contemplar o parque do Ibirapuera quando a trilha sonora é desgastante?

Claro que os fones de ouvido seriam a solução. Em alguns transportes públicos de algum estado quase ético exige que aparelhos sonoros devam funcionar apenas para seus donos, mas isso resolve alguma coisa?
É como fechar os olhos para o problema. Se as pessoas usassem fones de ouvido, elas continuariam escutando aquela mesma batida de que todo mundo gosta e fala.

Mas o que há com elas?

As gerações evoluíram, claro. E isso foi ótimo, nunca fui contra a evolução, embora eu tenha o meu lado velharia bem apurado. Mas se elas evoluíram, por que é que o conceito caiu? Ou melhor, não restou conceito algum! O senso crítico deu um tchauzinho junto com os jovens estudantes que tanto lutaram pela democracia.

Hoje a luta mais interessante que podemos ver é uma briguinha de twitter da qual não resultará em nada. E esses resultados me assustam. Não quero ser a solução desse problema, mas não quero ser a causa dele. O que, afinal de contas, eu quero ser?

"Sou um velho livro largado nessa prateleira. Hoje em dia ninguém quer me folhear. Penso que fiquei desinteressante, mas logo o meu epílogo me dá a lembrança de que algo escrito não pode ser mudado. E se em minha época eu era interessante, como poderia deixar de ser nesse século maldito?"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Talk more, dear inside

Durante as duas últimas semanas nós pensamos muito a respeito disso. Lembramos das vezes que tudo parecia perdido, que nada poderia dar certo, e que nunca iríamos chegar até aqui.
Achávamos que as coisas iriam demorar, ou que talvez nada fosse dar certo. O funcionar era incerto, e tudo o que tínhamos era nada.

Hoje estamos com outras ideias. Mais maduras, talvez experientes, mas com a mesma essência. Porque nós não podemos perdê-la, ela é valiosa. E não somos arrogantes, pelo contrário. Temos total autonomia para saber que algo de valor nos pertence. A hipocrisia acompanhada de falsa modéstia não foi feita para pessoas que possuem a nossa marca.

Não é cicatriz, mas também não é o hematoma abstrato que dizem por aí. Ele existe dentro de nós. Seu tamanho não sabemos, depende da situação em que é exposto, não?
Ele sente cada sensação que nos invade, e é terrivelmente doloroso quando se apega à dor.

"Ontem andávamos a cavalo. Brincávamos de nos esconder, o ar era nossa cobertura. Foi tão interessante nossos tempos de juventude que hoje não conseguimos mais nos lembrar dos detalhes, pois são momentos da época. Não há como retirar nossas lembranças, nós mesmos as jogamos fora. E isso dói de uma maneira particular quando folheamos os velhos álbuns de fotografia. Estamos crescendo, e para o desespero de sua mente, ela continua jovem." 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Walk immigrant

Quando ela anda de bicicleta tudo se resume à alegria
do momento. Seus joelhos hoje agradecem pela pausa
de bruscos tombos.

O passeio é calmo, pois já passou das três.
Em seu pescoço carrega uma Polaroid,
pronta para ser usada quando avistar um coiote.

Nessa região eles não vivem.
Sempre é bom estar preparada.
Os pinguins estão migrando no verão.

Há um cavalo à sua direita comendo grama.
Ele mata sua sede de orvalho.
Ali não há esquilos, eles são somente imaginários.

O passeio está terminando assim como o ar de seus pneus.
Usou a câmera assim que avistou um cachorro.
Hoje o dia não está para coiotes.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Drawing the wall

Você já ouviu falar em sanidade? Desde quando essa palavra é familiar? Se for dizer que ela se tornou familiar quando você começou a ler livros, escrever ou assistir séries, você está errado. Porque ninguém sabe quando ou onde a palavra sanidade invadiu a sua vida.

O que é ser sano? Quando crianças, falamos sozinhos o tempo todo. E isso faz com que as pessoas ao seu redor te achem interessante, um gênio ou apenas criança. Mas se um adulto começa a exclamar palavras pelo ar, ele não é sano. Ele é insano.

Estranho, não é? Como algumas coisas mudam quando a gente cresce. Falar sozinho na infância é algo normal, mas a maturidade não tolera esse talento, ela o expulsa da sociedade. E você acaba preso em uma camisa de força, dentro de um lugar. E quanto mais sua voz for usada para ninguém, mais ela não terá valor. Pois ninguém tem seriedade numa conversa de loucos.

É confuso o modo de vida que as pessoas aderem quando ficam adultas. Outras preferem fugir das responsabilidades, tornando a vida mais imprevisível, mesmo que a diversão um dia acabe e eles tenham de ouvir o relógio despertar.

No mundo dos sérios, as artes ficaram para trás. E há muito tempo, (muito mesmo) que não seguramos um giz de cera, uma folha de papel colorida e brincamos de inventar o sistema solar. Já não há mais casas com telhado laranja, já não há estrelas azuis, nem luas lilás, muito menos cavalos caramelos.

Hoje só existe o cinza, que apesar de muito elegante, não combina com nada, a não ser que desenhemos muitos elefantes. Você os faz?

"Veja. Juntei todos esses pensamentos para você ler. Tem coisas boas, más, outras tolas. Tudo está amontoado aí. Não tive tempo de organizar. Só queria que ela ficasse com alguém. Estou partindo para uma viagem, vou demorar para voltar. E meus pensamentos novos não cabem ali se os antigos ainda estiverem ocupando algum lugar. Não estou me desfazendo deles, é um empréstimo. Cuide bem deles, voltarei para buscá-los. Achei mais prático do que comprar uma mala maior. Lhe mandarei alguma carta, um pensamento aleatório, talvez de Paris, mas saiba que nenhum será tão valioso quanto esses aí. Meus pensamentos de sempre que deixo para você vigiar. Cuide deles, eu insisto. Pois neste mundo, tem muito louco querendo resquícios de algo cultural. Não deixe, seja egoísta. Pois a minha tortura interna é saber que eles ficarão longe de mim."

sábado, 12 de maio de 2012

A movie about you

─ Mas isso é muito complicado!
─ Nem é. Quando você pega prática, não consegue largar.
─ Credo! Como um vício?
─ Bem por aí. Mas convenhamos que é um vício artistico.
─ E isso existe?
─ Se eu acabei de dizer, então existe.
─ Muito bem!
─ Nem sempre vícios são ruins.
─ Não?
─ Existe o vício afetivo.
─ Existe ou você acabou de dizer?
─ Acabei de dizer.
─ Então existe.
─ Exatamente!
─ Mas falando sério agora. Quem inventou?
─ Bom, Steve Sasson trabalhou muito em um laboratório da Kodak, sabe?
─ Ah! Dessa eu lembro. Tínhamos uma!
─ É, tínhamos.
─ Sua avó também tinha.
─ Ainda tem! Ela recusou a era digital por uns tempos, mas depois que os filmes ficaram difíceis de encontrar, desistiu.
─ Ela te deu?
─ Ainda não.
─ Mas com certeza vai dar.
─ Pode dar, mas tenho vontade de ter uma Polaroid.
─ Pola o quê?
─ Polaroid! Não é do seu tempo.
─ Nem do seu.
─ Eu gosto de coisas vintage.
─ Vintage? Quantos nomes diferentes.
─ É, retrô.
─ Ah.
─ É aquela que a fotografia sai pelo buraquinho.
─ Mas como acontece aquilo?
─ Também queria saber!
─ Seria um filme diferente?
─ Não faço ideia.
─ Que pena...
─ O que você está escrevendo?
─ Poemas!
─ Aqueles de sempre?
─ É, aqueles.
─ Eu gosto.
─ Gosta? Você nunca me disse.
─ É... não deu tempo.

"E um dia, talvez, eu tenha desejado muito ter dito coisas que não disse. Pois esse maldito dia esfrega na minha cara o quanto eu poderia ter sido melhor. Me abrir mais, mostrar mais sentimentos. Ser mais amiga, ou talvez, apenas uma boa ouvinte. Das horas de radinho de pilha, não me arrependo. A única coisa que nunca poderei compreender foi o motivo. O que causou todo o terror, a desgraça e o horror que vivemos. Não. Nós não merecíamos. Todos podem servir como nossas testemunhas. Eles sabiam que nossa relação era inatingível. Mas alguém ousou rompê-la. E me desculpe se matar é um crime, mas eu o faria. Rasgaria a enfermidade para tê-la ao meu lado."