quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A pseudo-analysis

Se ela é tão equilibrada, seria eu deficiente do labirinto? A figura feminina que rodopia feito peão, mas que é mais graciosa do que um objeto que custa pouco.
Talvez a cidade não seja maravilhosa, ela não é nada comparada ao seu bom humor quando entra na loja de discos, nem mesmo os bordéis mais tradicionais são tão eróticos feito o seu cruzar de pernas.
Há uma linha tênue, quase invisível  entre os girassóis e seu sorriso ao deliciar-se com suco de laranja.
A biblioteca Nacional do Rio de Janeiro abandonaria suas prateleiras para que pudesse ser tocada pela curiosidade que há em seus dedos.
Se fosse nascida, a revolta da Chibata não ocorreria por castigos físicos. Que marinheiro não gostaria de apanhar por ela? Se pedisse, uma âncora seria colocada no lugar do Cristo só porque ela adora a moda náutica que Coco Channel criou nos anos quarenta.
Se seu vestido voa, não há nada que ouse se mover, ela não faz ideia de seu poder.
Frequento uma loja de discos desde a adolescência, tento conseguir um sorriso do dono desde então, na época boêmia as prostitutas pareciam o símbolo ideal de erotismo.
Os girassóis se movimentam por um amor platônico pelos raios ultravioleta, as laranjas que escolhi apodreceram antes do meu notar.
As folhas dos livros me cortam e sua poeira serve como defesa para minhas mãos grosseiras.
Nenhum marinheiro apanharia por mim, mas me arrebentariam se eu resolvesse mudar o Cristo de lugar.
Quando caminho, panfletos inúteis são jogados em meu rosto.


Ela é um anjo porque eu sou um demônio.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

There's no way to arrive

Ninguém pode falar tão bem da solidão como uma pessoa solitária. Será? Para sentir solidão é necessário que algo esteja vivo? A respiração é tão indispensável assim? Visitei alguns lugares que acreditem ou não, esbanjam mais solidão do que muita casa abandonada por falência nos anos dourados.

E se falarmos hoje de ferrovias? Muitas pessoas não tem nem ideia de que o Brasil era um país onde as ferrovias mandavam! E literalmente falando! Eram trens de carga gigantescos, com vagões que transportavam coisas variadas, mas hoje não transportam nada além da lembrança de uma utilidade que um dia foi essencial.
Elegantes com seus chapéus para se protegerem do sol, as moças apostavam nos laços e em rendas para que seu estilo discreto e comum fosse chamativo para algum rapaz de cartola e gravata. Houve muitos olhares e até certo atrevimento por parte dele. Imaginem só! Sentar ao lado da moça sem dizer nada. Ou pior, comunicar (isso mesmo, apenas comunicar) que iria se sentar ali mesmo.

Quantos vagões foram testemunhas desse crime terrível contra os tempos?

Acredito que a criminosa nessa história foram as rodovias. Ah! Malvadas! Por que acabaram com todo o glamour dos trilhos? Com seu asfalto quente, contribuindo para as ilhas de calor das cidade metropolitanas. Quem foi que as deixou invadir assim as nossas vidas? Maldito Hitler! Quem disse que ele poderia lotar a cidade de fuscas? Não lembro de uma permissão assinada por você, caro Vargas.

Se estávamos do lado dos aliados por opressão dos Estados Unidos, oh! Tão poderosos! Como o senhor deixou que os fuscas lotassem o Rio de Janeiro? Céus! Por quê?

Hoje as ferrovias choram por seus trilhos enferrujados. Cidade natal do tétano e das velharias que aparentam ser mal assombradas. Há tanta fumaça cobrindo nossas nuvens que internamente os vagões dão risada de nossas faces, eles podem já que foram rejeitados sem aviso prévio.

Para os inconformados que ainda aderem aos trilhos sobreviventes desse massacre ingrato deixo o meu abraço. Sou do time de vocês. A janela que revela os trilhos sempre foi minha melhor amiga, acreditem. Os trilhos são fortíssimos, até mesmo os que estão quebrados. Não há como dizer que um material é fraco se você o joga contra a parede durante muito tempo.

"Se o meio em que vivemos depende de nossas ações por que diabos estamos matando tudo de uma vez? Somos homicidas da vida alheia, da própria vida e da vida de quem amamos. Olhei para o alto e vi um céu rancoroso. Seu cinza não lembrava o prateado, mas sim o chumbo. Como balas de canhão prontas para cair em cima dessa cadeia de mal amados. Hoje é um dia importante para essa aquarela opaca, é dia de lavar os pincéis. E durante tal processo, notar que as cerdas foram ralo abaixo. Se não cuidas de sua pintura e do modo em que ela é feita, a natureza e o tempo lhe roubam a ferramenta necessária."

sábado, 7 de julho de 2012

Lucky drummer

─ Ei, ei. Você é muito talentoso. Não ligue para elas.
─ Fácil falar isso. Você é tão adorado por elas que essas meninas te dariam até a virgindade se pudessem embalar em uma caixa.
─ Opa! Eu gosto desse tipo de caixa.
─ Para, John. Estou tentando animar ele.
─ Pelo amor, Paul. Elas vão adorar esses olhinhos claros quando o ódio delas sumirem.
─ Nisso eu concordo. O Pete nem era tão bonito assim.
─ E qual é teu conceito de beleza, George?
─ Meu espelho.
─ Hahahaha, tá se achando!
─ Sério. Sou tão bonito que se eu tiver um filho, ele será igual a mim. E você vai se assustar quando for tocar com ele, McCartney.
─ Nos seus sonhos, George. Hahaha.
─ Pelo menos você tem boas piadas, Ringo. E se não funcionar, a cada risadinha não dada, uma menina pode escolher um anel seu.
─ É mesmo!
─ Verdade!
─ Não! Para, eu não vou dar meu anel pra elas.
─ Então dá pra mim?
─ JOHN CALA A BOCA!
─ Hahaha, é só uma gracinha Paul, ai ai!
─ Vou fazê-las gostarem de mim pelo meu talento mesmo. Eu já tenho sorte. Que ela ande ao meu lado, então.

E andou até hoje, não é mesmo?

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Be brave


Se ele fosse um lunático, que mal teria? A Lua é tão admirável que desprezar seus tão sonhadores habitantes, parece muito contraditório, não?

─ Querido, feliz aniversário! Suas nobres tias da Escócia lhe mandaram presentes!
─ Obrigado, mãe. É mesmo? Vou ligar para elas agradecendo assim que voltar.
─ Muito bem, agora vá. Seus amigos estão te esperando. 
─ Ok, tchau.
─ Tchau, meu amor!
─ Bom dia, senhor.
─ Bom dia, meu rapaz.
─ Bom dia, senhora.
─ Bom dia, filho! Ah, esses jovens quando sentam ao nosso lado, mal olham nossa cara. Sua mãe te criou bem!
─ Obrigado, senhora.
─ Que gracinha!

Dentro de todas as normalidades, tudo estava no plano de rota. E as coisas eram boas assim, mas a gente sempre espera por algo novo, não é? E acreditem ou não, pode ser bem surpreendente.

─ Eu vou descer.
─ Mas não é a sua parada, menino.
─ Não importa, eu vou descer assim mesmo.
─ SENHOR! SENHOR!
─ Mas pra quê tanta gritaria, meu Santo Deus?
─ De onde ele vem?
Isso aí?
─ Sim, senhor. De onde?
─ Ah. Comprei em um leilão. Mas não presta! Tem medo das pessoas, atacou vários espanhois.
─ Ele veio da Espanha?
─ Sim, das grandes touradas! Mas acabou se escondendo e o antigo dono não quis mais!
─ E teve mais?
─ Que nada! Todos viraram troféu.
─ Quanto pagou por ele?
─ Olha, moleque... Eu não vou vender ele. Deu trabalho pra mandar trazer! 
─ Quanto pagou por ele, senhor?
─ Duzentos euros.
─ Eu compro.
─ Eu não estou vendendo.
─ Eu compro do senhor por quinhentas libras.
─ E você lá tem quinhentas libras na sua casa?
─ Em casa não, mas no meu bolso. Toma.
─ De onde você tirou?
─ Minhas tias me deram.
─ E por um acaso você é rico?
─ Não. Elas moram na Escócia. Casaram com condes.
─ E por que te deram todo esse dinheiro?
─ Pelo meu aniversário.
─ E você vai gastar tudo com isso aí? Não deveria estar comprando roupas, sapatos ou coisas assim?
─ Não. Eu deveria gastar com o que achasse melhor. Então, temos um acordo?
─ Pense bem, não vou lhe devolver o dinheiro!
─ E nem eu o touro!

─ Por que você demorou tanto? Achei que íamos ver aquelas guitarras!
─ Você tem alface aí?
─ Aqui? Em casa? Por quê? Você não almoçou?
─ Almocei, o coragem que não almoçou!
─ Quem?
─ O Coragem, George. Eu não sei o que dar para ele...
─ Quem é Coragem, Paul?
─ Meu presente!
─ Mas que...
─ Olha.
─ VOCÊ.... Comprou um touro?
─ Comprei. O antigo dono dele era rude.
─ E como devem ser? Deus, Paul! Sua mãe vai te matar.
─ Por quê? Ela disse que eu poderia comprar o que eu quisesse.
─ Mas se você queria um animal, por que não comprou um cachorro ou adotou?
─ É que o dono dele estava incomodando o Coragem. Ele passou por muita coisa já.
─ Ai, ai. Acho que tenho alface na geladeira.
─ Maravilha, Ge! Você é demais!
─ Ouviu, Coragem? O almoço tá pronto!

E Coragem viveu tão feliz, que passou a média de seus descendentes espanhóis. Todos os dias demonstrava gratidão. E o menino de expressão serena, amou o seu presente como nunca amara outro. Era seu aniversário e sabia que tinha alguém para comemorar.



sábado, 9 de junho de 2012

Old book, same history

Se a música é a nossa alma sonora, notas fracas e letras sem nexo seriam para os desalmados?

É muito comum entrar dentro de um ônibus e escutar um som esquisito ou irritante em plena manhã de segunda feira. Isso só faz com que a nossa viagem seja mais longa, e até nos esquecemos de que há imagens lá fora. Realmente há! Mas quem é que consegue contemplar o parque do Ibirapuera quando a trilha sonora é desgastante?

Claro que os fones de ouvido seriam a solução. Em alguns transportes públicos de algum estado quase ético exige que aparelhos sonoros devam funcionar apenas para seus donos, mas isso resolve alguma coisa?
É como fechar os olhos para o problema. Se as pessoas usassem fones de ouvido, elas continuariam escutando aquela mesma batida de que todo mundo gosta e fala.

Mas o que há com elas?

As gerações evoluíram, claro. E isso foi ótimo, nunca fui contra a evolução, embora eu tenha o meu lado velharia bem apurado. Mas se elas evoluíram, por que é que o conceito caiu? Ou melhor, não restou conceito algum! O senso crítico deu um tchauzinho junto com os jovens estudantes que tanto lutaram pela democracia.

Hoje a luta mais interessante que podemos ver é uma briguinha de twitter da qual não resultará em nada. E esses resultados me assustam. Não quero ser a solução desse problema, mas não quero ser a causa dele. O que, afinal de contas, eu quero ser?

"Sou um velho livro largado nessa prateleira. Hoje em dia ninguém quer me folhear. Penso que fiquei desinteressante, mas logo o meu epílogo me dá a lembrança de que algo escrito não pode ser mudado. E se em minha época eu era interessante, como poderia deixar de ser nesse século maldito?"

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Talk more, dear inside

Durante as duas últimas semanas nós pensamos muito a respeito disso. Lembramos das vezes que tudo parecia perdido, que nada poderia dar certo, e que nunca iríamos chegar até aqui.
Achávamos que as coisas iriam demorar, ou que talvez nada fosse dar certo. O funcionar era incerto, e tudo o que tínhamos era nada.

Hoje estamos com outras ideias. Mais maduras, talvez experientes, mas com a mesma essência. Porque nós não podemos perdê-la, ela é valiosa. E não somos arrogantes, pelo contrário. Temos total autonomia para saber que algo de valor nos pertence. A hipocrisia acompanhada de falsa modéstia não foi feita para pessoas que possuem a nossa marca.

Não é cicatriz, mas também não é o hematoma abstrato que dizem por aí. Ele existe dentro de nós. Seu tamanho não sabemos, depende da situação em que é exposto, não?
Ele sente cada sensação que nos invade, e é terrivelmente doloroso quando se apega à dor.

"Ontem andávamos a cavalo. Brincávamos de nos esconder, o ar era nossa cobertura. Foi tão interessante nossos tempos de juventude que hoje não conseguimos mais nos lembrar dos detalhes, pois são momentos da época. Não há como retirar nossas lembranças, nós mesmos as jogamos fora. E isso dói de uma maneira particular quando folheamos os velhos álbuns de fotografia. Estamos crescendo, e para o desespero de sua mente, ela continua jovem." 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Walk immigrant

Quando ela anda de bicicleta tudo se resume à alegria
do momento. Seus joelhos hoje agradecem pela pausa
de bruscos tombos.

O passeio é calmo, pois já passou das três.
Em seu pescoço carrega uma Polaroid,
pronta para ser usada quando avistar um coiote.

Nessa região eles não vivem.
Sempre é bom estar preparada.
Os pinguins estão migrando no verão.

Há um cavalo à sua direita comendo grama.
Ele mata sua sede de orvalho.
Ali não há esquilos, eles são somente imaginários.

O passeio está terminando assim como o ar de seus pneus.
Usou a câmera assim que avistou um cachorro.
Hoje o dia não está para coiotes.