quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dance like an angel

Nunca fora receptora da frase: “muito bela”. Seus encantos eram outros, distintos daquilo que a maioria procurava. Dançava como o balançar do vinho livre pela taça.
A sutileza em suas sapatilhas faziam-na esquecer dos ferimentos freqüentes que possuía. Todos adquiridos com esforço, como se fosse medalhas por seu desempenho. Respirava por movimentos, e quando os realizava sentia-se completa.

─ Você é uma masoquista, sabia? Há artes que não acabam com seus pés

Ela sorriu, olhando bolhas de dor e trabalho que ganhara diariamente.

─ Não preciso ser um pássaro bonito se souber voar, e eu sei.

O Dr. Eduardo virou de costas, de volta à sua mesa de trabalho, escondendo um sorriso que queria contornar seus lábios.

─ Semana que vem quero ver essa pele renovada, pode ser?

─ Isso quer dizer uma pausa dos treinos?

─ Certamente...

─ Sabe que não farei.

─ Nunca tive uma paciente tão teimosa, por que vem me visitar?

─ Porque minha mãe me obriga, sei que ela gasta dinheiro comigo, então devo agradá-la.

─ Ela se preocupa com a sua saúde, e eu também.

Sabia que era verdade, que médico iria querer ver uma paciente ruim? Nenhum! Mas se os pés dela fossem retrato de seu talento na medicina, seria expulso do conselho, sem dúvida alguma.

─ Nos vemos.

Por algum motivo, sua voz parecia distante. Não gostaria de voltar ao consultório, mas por que será que sentiu uma emoção estranha ao passar pela porta? Pensou em voltar, mas aquele não era o momento certo. Ele era um dermatologista, e não psicólogo.

Fora sincera demais? Talvez, era o seu defeito mais notável. Não sabia mentir, e também não fazia questão de agradar as pessoas com falsos elogios, ele era sincero. Então por que não fazer o mesmo? Suspirou, virando duas esquinas para chegar em seu destino.
Sua casa ficava tão próxima ao consultório, que acreditava que a mãe havia escolhido aquele lugar por causa disso. Precaução. Nunca entendera, sua saúde não era de ferro, mas o máximo que pegava era um resfriado anual e olhe lá!

─ E então? Como foi?

Mal acabara de entrar, e já fora surpreendida com perguntas. Era tão estranho a maneira que a mãe se preocupava, quase doentia.

─ O de sempre, menos treino e mais medalhas perdidas.

─ Querida, seria bom se você desse uma trégua, o doutor tem razão.

─ Não, não tem. Eu vou para o treino.

─ Está ameaçando chover.

─ Se chover, tudo bem. Posso treinar “singing in the rain” como passatempo, até mais!

Passou pela porta da sala, e aquela sensação ruim voltou. Não era uma garota medrosa, mas aquilo estava começando a assustá-la, por que acontecera duas vezes seguidas e no mesmo dia? A única coisa que fez foi fechar a porta atrás de si, seriam coisas de sua coisa, estava cansada. Sabia disso, mas preferia esconder para não dar motivos por faltas.

Duas horas eram poucas para seus passos sincronizados, ela era a silhueta viva de uma estrela cadente. Rápida e precisa, contornava o ambiente como fragrância doce, recém jogada nas paredes brancas.
Com três horas sentou-se no centro do palco, olhando para os assentos de uma platéia vazia. Nunca gostara de ver aquelas cadeiras sendo ocupadas pelo ar, alguém tinha que ver o seu talento, a sua alma.

Colocou a mão dentro da mochila, retirando de lá uma caixinha de música. Era preta, entalhada de madeira com alguns contornos em relevo. Dentro, um casal de bailarinos.
Abriu-a, ouvindo a doce canção que sempre escutava antes de dormir.
Quando os bailarinos pararam de dançar, fechou-a. Voltando a colocá-la dentro da mochila, porém, esqueceu-se de fechar o zíper.
Trocou-se no camarim, como uma estrela... Sentia-se assim. Começou a descer as escadas que a levariam ao térreo, desceu rápido demais...

Um aperto forte no peito a fez parar, fechou os olhos, e mesmo que não o fizesse, seria inevitável enxergar a escuridão que a engoliu. Rolou pelo restante dos degraus, quando parou, a canção de ninar da caixinha a sua frente soou.
A textura nada delicada junto da temperatura fria do chão de mármore só a faziam ter certeza que estava começando a viajar.

Um mundo branco, roupas, paredes, lençóis e um leito. Abriu os olhos, recebendo um abraço de uma mãe desesperada. Finalmente havia acordado, seu peito ainda doía pelas descargas elétricas que recebera.
As vozes ainda estavam distantes. 

O relógio não para nunca..

Estava no palco, balançando como as penas de uma ave após receber a brisa agradável das tardes de verão, exceto por seus pés não estarem no chão, e sim pelos ares. As bailarinas do coral passavam tão perto dela, que pareciam não vê-la. Atravessaram-na, e ela era um pico de fumaça prateada, depois voltava ao estado normal. Na platéia não viu a mãe e nem o pai, os lugares estavam ocupados apenas por duas sapatilhas.

Tudo poderia ter sido diferente, se no momento em que abriu os olhos, não fosse o último que veria o mundo.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dreamer

Cientistas podem dizer que respiramos apenas gases, a maioria impuro. Mas eu conheço alguém que não respirava apenas oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, etc. Ele respirava muito mais. Quando parava de inalar a fonte de sua vida por questões obrigatórias, sentia-se doente. Fraco, como se fosse vítima de uma doença em estado terminal. Porém, assim que voltava para a sua fonte de energia, era um paciente que fora curado por sorte, e que viveria cada segundo de sua vida sorrindo.

As pessoas a sua volta não tinham dúvidas sobre qual carreira gostaria de seguir, a área não era um grande mistério. Sabiam perfeitamente que ele nascera cantando, e não chorando como a maioria das pessoas nasce.
O choro da vida. Foi o que ele soltou de sua garganta jovem.

E o tempo maravilhoso passou, de forma lenta. Os jovens não gostam quando o relógio atrasa, querem ir depressa. E já está na hora dos primeiros passos. Desajeitados, sem sincronia. Tantas vezes o chão foi testemunha de seus deslizes. Logo, as pernas ganharam equilíbrio, e com seu jeito carismático pôde dançar como sempre quis.

De dois, cresceu com o terceiro talento. Era impressionante como gostava de imortalizar o que via. Com uma sutileza mágica seu pincel dançou como seu segundo talento, e desse nasceu o terceiro. O sol radiava em pingos dourados, assim como a lua em sua aparição aos prateados, mares azulados... Adultos abismados. Ele sabia pintar.

Precisou que o tempo corresse um pouco mais, tinha tarefas como divertir-se. Era importante que cumprisse esse dever, pois sem ele, seria tão amargurado quanto os grandes que o invejavam. Sorria, um riso que afundava qualquer mágoa diária que alguém teria.
Gostava dos animais, quis ser veterinário. Começou a analisar detalhes, por textura e beleza, descobriu-se escultor. Seu quarto fora decorado, como uma selva casual.
Quando deitava a cabeça no travesseiro não fechava os olhos, ele contornava suas orbes para todos os cantos que estavam preenchidos com sua paixão.

Não era perfeito, sofreu do coração. Primeiro amou como nunca pensara que pudesse amar. Ela era tão bela quanto os sonhos de um poeta inspirado. E acreditava que essa fosse a fonte de toda sua felicidade. Enganado... quase perdeu os talentos numa tentativa frustrada de recuperá-la.
Sofreu, passou a ser companheiro das emoções. Seu rosto vermelho como nunca fora, sua alma rasgada, o coração machucado, o amor fora escondido. E agora o que restara? Raiva. Decepção. Vontade de mostrar o quanto doía perdê-la para outro alguém. E mostrou, aplaudido fora no teatro. Descobriu-se ator, nas feridas do amor.

Conseguiu esquecê-la atuando, mas quando vivia sua vida ela sempre voltava. Decidiu descontar em papéis. Todas as palavras que desciam por sua garganta, feito uísque barato que começara a ganhar forma. Um lugar melhor, a tinta sabia trabalhar. Olhou o que havia feito, era bom. Tinha um gosto de alívio misturado com orgulho. Se quisesse, a teria de volta em dois dias. Era só mandar os poemas que havia feito. Eram tão doces que fariam o castelo dos sonhos de uma pequenina formiga.

Passou a viver por si só, um dia após o outro. Anos passando, pessoas mudando, o mundo caindo, as nuvens flutuando. Sensações que eram bem vindas casualmente, outras que chegavam sem perceber, assim tão de repente.

E o garoto é tão sonhador, pois só em sonhos poderia ser quem gostaria. Dentro de uma normalidade que não pertencia a ele, jamais. O filme de sua vida fora narrado por uns, escrito por outros, mas apenas vivido por ele. Contaram-me que sua existência era frase de efeito, talvez seja! Sabemos apenas de uma coisa:



“Como a vida imita a arte”

sábado, 1 de janeiro de 2011

No wars in 2011

O que seria de nós sem algo maravilhoso que é a esperança? Podemos ver que uma pessoa totalmente amargurada é aquela que diz não esperar nada de ninguém. Aquela que foi tão magoada que hoje em dia prefere chorar de frustração do que por outro alguém. Há crianças sem esperança, como as da África por exemplo, outras ainda conseguem sorrir, pois sabem que o sol vem de qualquer forma para iluminar seus rostos feridos pela miséria.

Tantas promessas são feitas no começo do ano, e tantas quebradas no segundo dia. Promessas deveriam ser cumpridas, pois que sentido tem elas se não forem? Eu não consigo ver nenhum.
Acreditamos em pessoas que podem nos representar para o mundo, e tudo o que vemos é sujeira. Uma sujeira que para ser limpa leva anos, quem sabe décadas.
E há quem diga que existe a sujeira eterna. Marcas do passado que continuam em nosso código genético.

Realmente não vemos diferença alguma quando dá meia noite do dia primeiro de janeiro, é um fato. Além da chuva colorida de fogos, pois ela é a única que pode colorir nossas almas em uma noite especial.
Mesmo que seja demais para nossos bichinhos que temem esse barulho que não é nada agradável.

Hora de ligar para as pessoas queridas, e para aquelas distantes que não falamos hã anos. Ás vezes nos surpreendemos, outras vezes ficamos mais do que felizes de saber que essas lembram de nós.

Nesse dia de paz, alguns países deveriam se envergonhar por não saber o significado dessa bela palavra. E esta não é ambígua, é uma só.
Paz é paz, queridos. Então por que não tentamos descobrir o que ela realmente representa? Parece que o fogo já está mais do que claro para as pessoas do mundo todo. E não importa se és socialista, capitalista ou anarquista. Também não importa se é judeu, cristão, islâmico ou até mesmo ateu.
Onde está a paz que procuramos? Por que dois países que dividem o primeiro nome não podem se amar?
Oras... Homens do poder, parem com isso.

Abaixem essas armas, não explodam essa bomba, não façam as famílias morrerem aos pedaços, não façam crianças chorarem, não podem fazer os animais sofrerem com a ausência de seu dono. Porque eles são tão fieis... Acho mais do que justo pedir isso ao mundo.


"Talvez sem o brilho das armas, o sol possa voltar a brilhar,
e ser o rei do universo para quem precisa dele."

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

I want love, just a love

Fim de ano é sempre a mesma coisa, certo? Depois da ressaca do Natal, o que temos? A preparação para a ressaca do ano novo. Como diz uma canção que eu nem sei a letra: "Adeus ano velho, olá ano novo!" Se não for isso, desculpe, mas meu objetivo não é decorar letras, não hoje!

O que o ano novo significa? Claro que para algumas pessoas o ano novo não é apenas uma hora de mudar o calendário, e jogar o antigo no lixo. Quem consegue? Quando vejo aqueles calendários de bichinhos fofos, não consigo jogá-los fora! Sempre ficam no último plástico da carteira, não digam que estou sozinha nessa, não irei acreditar em vocês! Não dessa vez.

Mas não estou aqui para falar do meu mal costume de guardar coisas, (acreditem ou não, eu guardo muita coisa) mas sim para mostrar que todos temos algo em comum, pelo menos no dia trinta e um de dezembro.
O que temos em comum além de comidas especiais? Bem, vamos falar das coisas positivas, pois também temos nosso lado negativo sendo dividido, talvez isso que deveria nos unir cada vez mais!

Se ninguém conseguiu adivinhar... Francamente! Desejo, pessoal. Nós desejamos as coisas, certo? Bons desejos, e também os desejos malvados, desejos frustrados, desejos sem esperanças, mas mesmo assim desejos!
Existe algo melhor do que realizar nossos desejos? Alguns desejos são tão grandes que acabaram virando sonhos. Eu que o diga! 2010 foi o ano dos desejos especiais, pelo menos para mim.

Mas sei que não posso ser egoísta, reconheço que esse ano foi péssimo para algumas pessoas que conheço, e para as que não conheço. Então se você for a segunda citação... Sinto muito! Espero que o próximo ano seja melhor, e que você pense que não vale a pena desistir, muito pelo contrário. Valeu a pena continuar para descobrir que o ano passado não era o seu, mas sim o de outras pessoas. Então no ano que vem sorria, pois é a sua chance!

Eu vi sorrisos, tragédias fatais, machucados físicos e sentimentais. Também vi dor, amor, saudade e realização. Então o que quero ano que vem? Quero mais! Menos tragédias fatais, menos machucados físicos e sentimentais. Menos dor e saudade. Quero fatos felizes, tombos por correr nos campos, surpresas de pessoas que visitam as outras depois de tanto tempo. Quero presença, quero conhecer as pessoas e o mundo.

Há coisas que irão mudar, outras não. Mas sempre é bom esperar que elas mudem. A mudança sempre vem para nos fazer ver que a rotina pode ser tediosa. Então é isso que eu quero no ano que vem.
Uma mudança positiva para as pessoas que precisam dela. Irá vir, pode ser em qualquer mês, até no último dia do ano que vem, mas não deixe de esperar.


Sempre haverá alguém que estará ao seu lado, 
então abra seus olhos e veja o ano chegando.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Teddy bear

Eles eram tão grandes, e eu tão pequenina. Oh, sim. Foi graças a uma conversa ontem que lembrei-me de meus queridos companheiros. Estes que substituíram tão bem alguém, pois em meus momentos de solidão precária, lá estavam eles, com seus sorrisos imortalizados por um gesto de cuidado.

Para uns a infantilidade morreu, ou nunca existiu. Já para outros sempre esteve presente, e continuará viva. A sensação que tenho é que fiquei maior, e eles encolheram. E foi de uma forma absurda, pois lembro-me que eram maiores que eu... Ah, quanta nostalgia, não é? A maioria dos textos deste blog está falando do passado, de um passado que sempre senti, e sinto falta.

Porém, procuro diferenciar nos temas, e acho divertido saber a opinião das pessoas quando terminam de ler tudo isso.
Nossa infância foi trancada em um lugar comum, então por que não libertá-la? Segue abaixo uma narrativa especial, para todos que um dia irão libertar a criança que existe lá no fundo desses corações adultos.



Nos lençóis vazios eu sentia a cama quente, o tempo frio correu como sempre corria, daquela forma que irritava-me profundamente. O chão tão gelado me fez recuar de volta para a cama. O que era aquilo? Uma mulher com medo do gelo? Oh, não. Como posso ter medo de mim mesma?
Enfrentei-o de modo normal, o que me tranquilizou foi a ducha matinal, lamentável saber que a conta está atrasada. Bons tempos aquele em que a água era de graça.
Roupas tão desejadas por mim há anos atrás, calçados bonitos e luxuosos. Ah, e as bolsas... Que carregavam todo o vazio de minha vida, mas mesmo assim, divinas.

A máscara que eu tinha sob o rosto não era apenas maquiagem, era a máscara que as pessoas grandes tinham de ter para possuir seus papéis sujos.
Papéis que compram a qualquer um, em qualquer momento. Meu trabalho era bacana, como qualquer escritora amadora poderia sonhar. Redatora chefe de uma revista consagrada parece demais? Para mim nunca é demais.

Alinhar, escolher, escrever, ler, escolher de novo, se irritar, demitir, chorar, sorrir, quebrar... ir embora.

Meus verbos diários, oh! Como são belos, não? Em meu celular um SMS: "Estou indo para a sua casa, preciso te contar algo. Não invente desculpas. Suas secretária não me engana dizendo que está em Paris." 

Que  graça, não? Minha mãe sempre foi muito sutil... Mas algo me perturbava, e eu não sabia o que era.
Algo que me dizia para correr pra casa, como uma idiota arrumando todos os defeitos de minha casa. O problema é que minha casa não possuía defeito algum, eu mesma não mexia em nada para vê-la bagunçada.
Estava questionando-me o motivo de tanta preocupação enquanto deslizava meus sapatos de cetim no chão brilhante do shopping central. Uma vitrine chamou-me a atenção.
Quando aproximei-me dela vi o horror. Era aquilo! Aquilo que estava deixando-me perturbada depois daquela mensagem!

Sai correndo... sim! eu não corria há anos e isso com certeza irá resultar em dores musculares. Dirigi o carro feito louca, uma louca no trânsito como alguns motoristas gentis me apelidaram.
Eu não liguei, dirigi feito "macho" como aprendi em meus anos de adolescência. E parecia tão tarde quando vi a limosine dela em frente ao meu portão.
Eu devia explicar algo à ela? Deveria dizer que a cena em meu quarto não passava de uma decoração viva? Quem acreditaria que tantos amantes em minha cama, esperando-me não era um motivo de escândalo?
Eu estava tão perdida...


Já sem ter o que fazer, demorei o quanto pude com meus passos decepcionados. A casa estava vazia, como esperado. Larguei algumas sacolas no sofá e subi as escadas. A porta de meu quarto estava aberta, e minha mãe permenecia em minha cama, acariciando um de meus amantes.

─ Você não morreu como eu havia pensado.

E então eu sabia que libertar meu segredo era o único jeito de ter forças para viver minha vida. Pois meus amantes sempre estiveram comigo, preenchendo o vazio de um amor que nunca me notou.
E agora alguém estava enxergando o quanto sofri calada, só para mim.
Em minha solidão eles me davam conforto, mesmo que fossem pequeninos...


Um grande amor que perto de mim é imortal.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

If you're going, wait

Era uma tarde muito clara de primavera, o campo perto de sua casa estava enfeitado das mais belas flores já vistas. Violetas e rosas, mas sua favorita eram as tulipas azuis.Para fazê-la sorrir era preciso um grande esforço.

No começo do ano ele a conheceu, em dois dias se apaixonou. Em três semanas começou com os poemas. Julgava-se um amador, um pseudo poeta que não sabia fazer mais nada se não escrever suas palavras para ela.
Sua professora por vezes escondeu seu encanto, dizendo para parar de ser tão crítico consigo, era um artista. Possuía palavras tão fortes que essas entravam nos sonhos da professora, como cenas provocantes.

Pensou em deixar o colégio, pensou em fugir. Era difícil vê-lo sofrer em palavras. Oh sim! Ela sabia que ele tinha um platonismo do tamanho de sua genialidade. Como era difícil saber que ele passava a madrugada toda elaborando os mais belos poemas para alguém que não o enxergava.

─ Então, por que está esquecendo das vírgulas?
─ Eu... não prestei atenção. Desculpe.
─ Como posso avaliar teu texto sem uma gramática formal?
─ Faça... o que achar melhor. ─ Respondeu, em um bocejo exausto.
─ Quanto tempo está sem dormir?
─ Hum? eu não sei.
─ Isso não pode continuar, por favor. Esquece-a, ela não merece tudo isso. Olhe para você, era tão doce com teus poemas, e agora o que é? Está amargo.
─ Eu não queria que fosse assim, mas é.
─ Você pode mudar isso, não pode?
─ Não posso. Sabe que não.
─ Está se destruindo, é tão horrível vê-lo assim.
─ Não veja.
─ Não posso fechar meus olhos, eu te vejo em todos os lugares.

Um baque. Por essa ele não esperava. Suspirou, levando a mão aos cabelos rebeldes que possuía. Olhou para as paredes, para o quadro branco, para as folhas de papéis em sua mesa. Mais do que nunca ele queria escrever, escrever sobre o que havia descoberto. Sobre o que pensava a respeito.
O mundo estava começando a engoli-lo com uma velocidade maior, sentia um grande buraco em suas costas pronto para apanhá-lo.
Voltou para aquela sala de aula, fazendo contato visual com a professora.

─ Não posso esperar por ela, e nem você por mim. Eu lamento tanto!

Beijou-lhe a face, deixando o colégio pela última vez. Isso a preocupou, eram férias e só o veria no mês que vem. Estaria ele curado daquela paixão? Por vezes pensou em mostrar os poemas para a garota, mas ela não era do tipo que gostava de um bom cérebro, apreciava os músculos.

Um dia apenas... ele tinha um dia. A noite veio e o envolveu com sua escuridão. Demonstrou o que possuía, um buraco no coração. Exatamente como em seus poemas, e agora fisicamente com uma bala.
Matou-se por amor, matou-se por rancor, matou-se por culpa. Quem era ele para despertar algo tão horrível na pessoa que se apoiava? O amor era um veneno, e desse veneno iria morrer sem deixar mais vítimas.

A notícia chegou, mas a razão era desconhecida. Só uma pessoa sabia o motivo, e via que a morte em vão não poderia nunca ter uma paz eterna.
Juntou todos os poemas, guardou-os em uma caixa. Direcionou-se para o carro, dirigiu e dirigiu. Uma chácara.

─ Você?
─ Eu preciso falar com você.
─ Eu já soube, aquele maluco se matou. Ninguém sabe porque, pra mim ele usava drogas.
─ Uma droga bem ordinária.
─ É, mas o que eu tenho a ver com isso?
─ Toma.
─ O quê é?
─ Todos são sobre você, saiba que tipo de droga o matou.

Abriu, leu o primeiro. A caixa foi para o chão, espalhando os outros pela sala.

─ Eu sou a droga?
─ Alguma dúvida?
─ Eu não... sabia. ele nunca disse.
─ Ele sempre disse da maneira dele.
─ Quer que eu me sinta culpada? Olha, eu não tenho culpa, tá legal?
─ Não é para sentir-se culpada. Agora sabe porque tudo aconteceu, você tinha que saber. Tudo seria em vão se fosse em segredo, ele deveria querer que você soubesse.
─ Não adianta mais.
─ Não.

Foi embora. Voltou, voltou. Na caixa de correio um envelope. Na sala, a mesma caligrafia:

Eu não tive coragem, eu não podia mais permitir que outros enlouquecessem como eu. Me perdoe, eu jamais quis lhe causar dor, mas se eu for embora, você irá me esquecer. Agora dói, amanhã também. Semana que vem não mais, só preciso que viva o primeiro dia, os outros virão.
Eu fui covarde, lamento por isso. Dediquei tantos à ela que esqueci de quem os lia. Me perdoe de novo, eu sou um imbecil e quero fazer as coisas direito.
Esse é o último, e lhe juro que o receptor é quem acompanha essas linhas.

"Estou indo embora para longe, tão longe que você não irá me ver,
mas isso não significa que eu estarei longe de você.
Não notei sua aproximação, é que simplesmente tinha
algo em meus olhos. 
Meu coração... Agora bate por outro alguém, logo
não baterá por ninguém.
Mas a última batida dedico a ti, pois entre muitas 
das quais tentei me envolver, só agora vi que te conheci.
Alguém além da seriedade de um professor, alguém que como
eu, poderia sentir o amor.
Esse amor está queimando há tanto tempo que precisei esfriá-lo,
não siga meus passos, pois nesta tentativa só consegui matá-lo.
Olhe para o mundo, ele irá amar você. E quando parecer que não
ama, feche os olhos. Em cada lugar que for, eu estarei sempre
com você."

P.S.: Agora que terminei meu último poema sinto-me livre, embora queira escrever mais sobre ti, não posso. Chegou a hora de partir.

Lágrimas. Papél molhado, amassado e admirado. Queimou-o com o fogo de uma vela. Só ela saberia o que responder. E já que ele estava em outro lugar, precisaria se mudar.


Uma faca, um pescoço machucado. A luz se foi de seus olhos, não poderiam mais estar separados.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

I can't say hello

Quem nunca deixou que os limites da paixão atravessassem uma tela de computador que atire a primeira pedra. Parabéns, se você atirou uma pedra, és mentiroso. Pois eu não conheço ninguém da geração "tecnologia" que não tenha se deixado levar por uma paixão como essas.

Não é saudável, mas é gostosa de viver. Acreditem, ainda mais se for correspondida. E quando não é... bem, o problema começa aí, certo?
Um platonismo é algo da adolescência, provavelmente muitos aqui já se apaixonaram por professores (as), totalmente normal! (Estagiários também conta, quem nunca ficou sem ar com o de biologia?!)

Acontece que amor platônico com pessoas que vemos todos os dias é melhor de se viver, por incrível que pareça. A desvantagem, claro, é que sempre será um amor platônico. Não vejo muita graça se deixar de ser, só se fosse por uma razão: recíproco.

Posso contar nos dedos as pessoas que conheço que sabem o significado dessa palavra. Triste, não? Também acho.
Mais triste que isso é ver alguém online, e não ter coragem de dizer oi. Soaria como: 

"Eu sinto a sua falta, fale comigo. sou carente", 

ou é melhor esperar que ele diga "oi" e pense: 

"Ela nunca me dá oi, devo ser um chato."

É tão difícil saber o que se passa na cabeça da pessoa que gostamos.

E inevitável tentar prendê-lo (a) com nossas conversas sobre coisas que agradam. Ah! Temos um dicionário no coração com suas coisas favoritas. É tão difícil nos segurarmos para não puxar papo, tão difícil tentar esquecer quem está longe, e fácil esquecer quem está próximo.

Me diga qual foi o seu truque, pois em todos os anos de minha vida, eu jamais me senti tão escrava da saudade.


Platonismo é algo marcante, saudades torturante, e meu sentimento por ti é relutante.