segunda-feira, 14 de março de 2011

We want to breathe lyrics

Escrevo sobre as coisas que vivi. Escrevo sobre um campo que me faz lembrar vagamente dos anos noventa. Sobre uma casa que nunca entrei, porém, que adoro admirar a sua beleza da forma simples que foi construída.
Transformar o que é belo em traços é uma arte, transportar a beleza em letras é quase utopia.
Relatos de felicidade plena, tudo tão bonito que mais parece um poema. Desses de livros de bolso que enche os olhos de pessoas sem idade.

Não há números para calcular a satisfação de viajar em tantas páginas. Nos pensamentos de nossas pessoas especiais, nas coisas que elas escrevem, tanto dizem em uma frase. Mera oração, sonetos que não só em mim causam arrepios, és admirável de contemplar.

Gente diferente que sabe como mudar. Mudar com as palavras, de forma grande em um pequeno gesto.
Porque o seu balançar ao direcionar a caneta sob o papel é valsa celestial. Das coisas que tanto li, sempre cativo-me por tentativas de mostrar sentimentos.
Cada palavra escrita aqui é banhada deles. Bons e ruins, vividos e não vividos, porém, sempre sentimentos.
Quanto tempo irá durar essas palavras? E quando a tecnologia morrer? Quem há de ler o que escrevo aqui, neste espaço quase particular?

Justo hoje resolvi terminar com essa abstinência de escrever. Como qualquer vício, é preciso ter pausas para os pensamentos se ajustarem.
Agora organizados, é hora de bagunçar. Derramar todas as minhas incertezas de mudar o que ainda não pode ser mudado.

"Há momentos em que as pessoas tem a necessidade de falar. Mas quando essas não conseguem, usam de outro meio para serem ouvidas. É tão simples desvendar o coração de um jovem ou a sabedoria de um idoso. É fácil analisar o que as palavras querem mostrar. Gritar. Amar. Confessar. Solidificar. Tão pesadas e tão leves, as palavras nunca irão morrer. E hoje é um dia que temos a certeza que fazer poesia não é só escrever em versos. É dar vida ao que não se pode ver, é declarar fidelidade as nossas fantasias. Somos poetas e iremos aprender a descrever cada coisa que exista no mundo. E de tantas tentativas, vejo que o mundo existe por nossas palavras."

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

How could you know, George?

─ Você acordou cedo.
─ Eu quero fazer as coisas diferentes hoje.
─ Por quê?
─ Não sei, acho que estou diante de uma grande mudança.
─ Oh, vai sair?
─ Vou sim, logo mais estou de volta.

E foi, andando pelo asfalto de sua calçada com um ar de quem era descobridor. Descobria cada detalhe que sua rua lhe proporcionava, parecia neurótico.
Mas ainda assim, percebeu coisas que há anos nem imaginava que pudessem existir ali, como o cheiro da manhã misturado com a chuva da noite passada. Era um remédio para a sua alma, pena que descobrira somente agora.
Teus passos diziam muito sobre ele, teu olhar mais ainda. Olhos profundos, sorriso de garoto que sabia exatamente o que queria, e bastava uma fala, já conseguia.
Não se aproveitava de seus encantos, mesmo quando esta fosse a única maneira de sair de uma encrenca.
Adorava olhar nos olhos delas, de ombros erguidos, mãos nos bolsos: ─ "Eu não sabia disso".
Estava encrencado? Quem estava mesmo? Oh, quase perdi-me ao contar a maneira que ele escapava de seus problemas, que diante dele, eram menores do que as formigas que corriam de seus pés no campo que agora pisava.

O vento levantava a barra de seu casaco, este dançava com seus cabelos, deixando-os despenteados, de uma forma que não o deixava menos bonito, muito pelo contrário. Quanto mais deixava a vaidade de lado, mais ela queria estar junto a ele.
Como uma amante louca, que mesmo rejeitada, não saía dos pés de seu amor.
E ele é tão doce que quando o sol está vindo, e o encara por todas as manhãs, este brilha mais. Como numa disputa celestial que o envolve de prazer. Porque brilhar para uma estrela, e ter o reflexo dela direcionado a ti, era mais que um fenômeno qualquer, era a graça de conhecê-lo.

Há tantas coisas para se falar, há tantos versos para cantar... E hoje o que ele faz? Contempla sua vista de um bosque qualquer, que daqui alguns anos, será épico por ter tido a sua presença. Que ironia...


─ Hey, aí está você.
─ Olá.
─ Por que está aqui parado?
─ Contemplando a vista, não é bonito?
─ Muito.
─ Hoje as coisas parecem diferentes.
─ Eu sei que dia é hoje, não precisa lembrar.
─ Não estou querendo te lembrar, nem eu mesmo lembrava.
─ Mentiroso.

Ambos riram, encostando-se em um galho de uma árvore qualquer.

─ Você não costuma acordar tão cedo, pensei em passar na sua casa depois das dez.
─ Hoje eu quis fazer tudo diferente.
─ Hm.
─ Sabe? Essa viagem vai mudar as nossas vidas, eu sinto isso. E quem dirá que iremos estar aqui novamente? Tranquilos?
─ A idéia soa ruim?
─ De modo algum, é ótimo mudar. Mas hoje estou tão nostálgico que sinto a necessidade de fazer coisas que não me importava tanto.
─ E você mal tem dezoito anos.
─ Tecnicamente, nem dezessete. Nasci bem depois das nove.
─ Nasceu para a gandaia.
─ Certamente.
─ Te trouxe um presente.
─ O quê é?
─ Deixei na sua casa.
─ Não disse que iria passar lá depois?
─ Não, só disse que passei aqui e te vi.
─ Então teve certeza que eu não estava em casa.
─ Sim, é só você quem faz anos hoje, George. Ou tem uma irmã gêmea para mim?
─ Cala a boca, John.
─ É, tudo vai mudar.
─ Vai mesmo.

E mudou. De forma tão gritante que ele estava totalmente certo. A vida mudou, a rotina idem. Pois nada poderia ser diferente, estava destinado a eles ser o que tornaram-se.
A inspiração que temos até hoje, a compaixão e a paz que dá ao ver de perto esse trabalho maravilhoso que mudou tantas vidas...

"Hoje quis fazer diferente, pois acredito que isto realmente tenha acontecido, e se não, deverá estar acontecendo em algum lugar. Com a presença de ambos, nenhum lugar é escuro. O sol não me deixa mentir, porque ele sempre virá."

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Red on the street

Estradas são caminhos concretos.
O asfalto mal formado, que se forma no meio do nada,
machuca a natureza apenas para nos guiar.
Deveria sair deste lugar?
O meio do nada lhe parece desconfortável?
Estradas e caminhos, vejo carros passando,
indo e vindo como um ciclo, o passaporte
tem cheiro de gasolina, mas o destino é sempre destino.
Horas na mesma posição, movimentos indesejáveis,
sede por comida, fome por água... É um delírio.
Perdeu-se no meio do nada, o nada perdeu-se em
sua caminhonete vermelha. Seus problemas desenfreados,
pneus carecas na estrada. Faróis por acender, ninguém para
iluminar. No pico da madrugada não há ninguém, apenas o
caminho e a estrada.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Can you see my soul?

Mudar. Metamorfose. Sinônimos que intrigam as pessoas. Essas tem medo de qualquer tipo de mudança. Adolescentes permanecem apavorados quando o motor do caminhão é ligado, e seus destinos estão literalmente na gasolina. A gasolina tem um cheiro forte, carrega as lembranças deixando poeira para trás, deixa as mágoas, as festas e a infância. Não há volta. E quando o tempo passa, o que resta? Outro caminhão, este menor, pois suas coisas estão com quem tem de guardá-las, e você é deixado em algum lugar que possui uma cobertura.
Como um glacê, mas o recheio é a morte. Você está lá para morrer, ninguém mais quer saber de fios ligados, de comidas diferentes ou de suas palavras sem sentido algum, eles querem paz e conseqüentemente acham que você também precisa dela.

A paz tem que ser solitária? Tem que andar ao lado da saudade que arde no peito como as chamas de um incêndio? As cinzas entram dentro de seus pulmões, começam a deixá-los mais doentes, te dá prazer e te mata. Assim como o veneno que te embriaga nas noites em que as pessoas de branco não estão por perto. É isso que vai te acontecer. Está sujeito ao destino... O destino que... que... Merda.

Parou. E assim que o fez, a dor em seus dedos pesou-lhe muito. Estava à quatro horas escrevendo sem pausa, o movimento repetitivo o fez sentir agulhas em seus dedos. Era a pior sensação que seu corpo lhe presenteava, não podia controlar. Tinha que obedecê-lo, e se continuasse, a dor aumentaria constantemente.
Seus olhos cansados e vermelhos calculariam quantas noites mal dormidas ele havia tido. As pálpebras já não eram como antes, no tempo em que tudo era novidade. Agora estavam mais caídas, caíam conforme o tempo passava.

Agradeceu à sabe-se lá quem por ter sua personalidade. Isso não mudava. Nunca. E se mudasse, já teria cometido um suicídio da maneira mais rápida, com a certeza de que seria levado para a escuridão, preferia isto a não ter os próprios pensamentos em ordem. Era questão de honra.

Nunca repetia, sentia falta de algumas das que mais gostou. Conformava-se por não voltarem mais, era rotina. Seus cabelos estavam loiros, um dourado bonito, na altura dos ombros. O rosto bem mais masculino, traços de quem tinha vinte e poucos anos. Era alto, pele bronzeada, isso sim era estranho. Pois não havia ido para o litoral do país recentemente. Mas aquele outro rapaz fora...
Tomou um último gole de sua cerveja, mesmo que já estivesse quente era o que mais queria. A quantidade de álcool em seu organismo estava mais para aceitar os fatos do que pelo prazer de estar mais atento.

Cobriu-se com os lençóis, o tecido com noventa por cento de algodão estava frio, frio como os seus pensamentos perante a situação. Todas as noites mal dormidas resultavam em dias em que sua casa transformava-se em prisão. Seu ar era mais do que fantasmagórico, irreal.
E mesmo que a madrugada fosse sua pior inimiga, ele continuava a amá-la. Não somos obrigados a amar somente os amigos. Amor e ódio, ódio e amor. Remédio ou veneno? Ambos irão provocar dor.

O silêncio da calada da noite afundava-lhe a mente, mergulhava seu corpo nas águas escuras que sugavam seus traços. A aparência começara a ser modificada, os cabelos encolheram, o pigmento dos fios alterou-se. O rosto quadrado deixou de aparentar alguns anos, as marcas foram substituídas por uma pele lisa.
E agora parecia flocos de neve, sentiu frio. Puxou os lençóis para aquecer o corpo, assim que o fez, o branco do tecido penetrou em sua pele, nas camadas mais interiores que estavam diferentes. Menos alto, mãos mais jovens, dentes menos sujos... E a claridade chega.

O canto dos pássaros avisa que é hora de encarar a vida de frente, que parte do mundo acordou enquanto a outra vai dormir. Assim como o ciclo da vida, olhar-se ao espelho era um desafio.
E hoje, ao abrir os olhos, apenas levantou-se um pouco. De frente para à cama havia um espelho que preenchia toda a parede.
Cabelos cacheados, um pouco cheios na altura da nuca. Eram negros assim como as sobrancelhas. Vestígios de barba começavam a nascer.

Tudo diferente...

Menos as íris. As malditas íris que nunca mudavam. Poderiam ser normais, não é? Chega de ser o bicho que ninguém conhecia. Estava exausto daquilo, não podia simplesmente mudar? E quanto esforço fez... Ninguém sabia, mas ganhara dores fortíssimas de cabeça de tanto tentar mudar o que nunca conseguira.
Não poderia ter amigos que durassem mais do que um dia. Sua família morreu acreditando que ele estivera morto e que alguém viesse brincar com isso.

─ Mãe. Eles me deixaram ir.
─ Quem é você?
─ Mãe, sou eu.
─ Pare de me chamar de mãe.
─ Mas mãe...
─ VOCÊ NÃO É MEU FILHO! SUMA DAQUI!

Abandonado. Como um cachorro que envelhecera. Novamente jogado em algum lugar para esperar a morte.
Ele não estava velho, estava? Não... Tudo fora deixado para trás.
A vida deixou de ser a mesma, o começo de tudo era desconhecido. A causa nunca fora encontrada, a cura jamais mencionada. Era uma doença? Quem iria acreditar nele? Quem não o declararia insano? A insanidade desde já pode ser considerada normal. Somos tão insanos...





"Vagou por tantos lugares, deixou de ver as pessoas que mais amou, 

lutou contra quem disse que era louco. 
Em pouco tempo concordou. 
Estava louco, seu corpo era o frasco 
do veneno que tinha dentro de si. 
Maldição? Talvez.
Desejo? Jamais. Ele era ele,
o espelho discordava. Quem
não pensou nele todos os dias?
Ninguém. Onde está o garoto
misterioso? Ele vaga sem
rumo, sem vincos e sem
faces. Muda tanto que
hoje em dia, a dor
não incomoda tanto.
É apenas dor."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

When a ghost is alive

No passado ao olhar as janelas, víamos pássaros, aviões e pessoas pulando de pára quedas. Hoje, só podemos ver os carros, e alguns acidentes envolvendo máquinas e nuvens cinzas.
A tecnologia cresceu tanto que algumas profissões simplesmente morreram como os velhos idiomas.
Hoje o mundo fala apenas uma língua, que é a mistura de todas. Foi uma forma de tentar unir as nações, que nem sempre deu muito certo.
Tudo estava diferente, as pessoas tentando cada vez mais passar de um nível de inteligência para outro superior.
Eram poucas as pessoas que não tinham noção alguma, e eu era uma delas ao ver dos homens de branco a minha frente.

─ Você tem certeza que quer isso? Pode afetar tudo o que conhecemos. Existe um filme que relata isso.

Segurei um riso para não parecer tão insensível. Era óbvio que estavam preocupados, mas para mim não era nada a não ser uma tentativa de ter meu mundo de volta.

─ Vocês me trouxeram pra cá  por um erro, temos que concertar isso.

─ Mas você quer voltar bem antes de onde a tiramos.

─ Eu preciso arrumar algumas coisas. É importante.

─ Não pode alterar... Seria...

─ Loucura. Já sei. Mas eu preciso, tudo bem? Preciso avisar as pessoas do que as esperam, entendam.

─ Vai comprometer o nosso futuro.

─ Um dia irão me agradecer. Agora vamos logo com isso!

Despediram-se.

O túnel a engoliu de forma aterrorizante. Não sabia se sentia dor, ardência, medo, pavor, ou alegria por estar na época certa de seus desejos mais íntimos.
Caiu em um bosque confortável. Deu graças aos amigos por terem tido o cuidado de usar a grama como cama provisória.
Arrepiou-se ao ouvir outro idioma, e aquele lugar... Estava frio, algumas lojas já possuíam grandes pinheiros para o Natal.
Um Natal que poderia ser normal ou não.

─ Você está bem? ─ Uma garota de cabelos loiros estendeu a mão para me levantar. Seu estilo era da época, e por dois segundos, eu me senti fora do contexto.

─ Estou, obrigada. Foi só uma tontura.

─ É a emoção, não é? Já vi pessoas passando mal hoje, várias delas. Tudo por causa dele, mas é natural. 

Um aceno de janela já é o suficiente para um AVC.

─ Ele quem?

A garota fitou-me curiosa, estudou o meu rosto, e depois minhas mãos. Ela queria ter certeza se eu não iria cair novamente.
Enquanto ela fazia um check up em mim, eu olhei a minha volta. Paralisada.
Pessoas segurando discos, livros, camisetas, lágrimas.
A emoção de estar no lugar que eu nunca estivera, e ter a sensação de que eu sabia de algo.

─ Pode me dizer que dia é hoje?

─ Oito de dezembro.

Congelei. Teria que agir naquele dia mesmo. Eram oito horas da manhã, e meu corpo parecia extremamente cansado.

─ Preciso de um café.

O líquido negro tinha um gosto nostálgico, era cativante estar ali. Não entrei na cafeteria, precisava ter foco.
Julie queria saber de onde eu era, o que eu fazia lá e o motivo por aparentar estar cansada.
Menti. Inventando histórias de prontidão. Ela poderia me agradecer mais tarde.

Nos despedimos, e eu sabia que jamais voltaria a vê-la.

Meu coração saltou quando avistei um rapaz com um livro nas mãos, este sim possuía mãos trêmulas, quem sabe na mesma freqüência que as batidas de meu coração?

─ Será que você poderia me emprestar a caneta?

─ Claro.

Sua voz soou como pedras em meu estômago. Ele havia falado comigo, ele havia sido gentil, mesmo que eu soubesse que sua cabeça estava muito longe daquele pedido casual.

─ Mark, não é?

Suas costas permaneceram rígidas, pareceu uma eternidade o intervalo de tempo em que ele virou de frente pra mim.

─ Como sabe?

─ Simplesmente sei. E não é só isso, eu sei de muito mais. Não acha que cinco balas são fatais? Essa arma não é digna de quem é tão devoto a Deus.

Olhos apavorados me fitavam, eu podia saber o que passava em sua cabeça agora.

─ Não sou uma alucinação, e nem um anjo que veio te salvar. Em partes vim salvar alguém, mas não é você.

─ Está me enganando.

─ Ah, é? Contou para mais alguém que pretende matar John Lennon hoje por causa de um livro e de vozes que mandam em você?

─ Você não existe.

Soquei seu ombro com força, ele cambaleou para trás, irritado.

─ Abra os olhos. Você está doente.

Ele ainda não havia se conformado que seus segredos já não eram tão secretos. Engoli em seco levando a mão ao bolso esquerdo, de lá, tirei uma foto que havia pego na internet. Mostrei à ele, junto com um jornal amassado do The New York times.

─ Não...

A foto do corpo de Lennon em um necrotério foi o suficiente para ele ganhar o aspecto de um fantasma. A data do jornal com a matéria publicada e ao centro, uma foto de Mark manchada com todo aquele crime bárbaro.

─ Você nunca mais vai sair da cadeia.

─ Ninguém vai acreditar em você.

Abri outro jornal, este com uma data de mais de vinte anos à frente.

─ Vê? Ele vai morrer disso porque não conseguiu suportar a dor da perda do parceiro. Quer matar inocentes? Quer saber quantos jovens irão cometer suicídios só nesta semana? O céu nunca será o teu lugar.

Mark chorou. Abraçando-me tão desesperado que senti remorso por querer lançar uma faca em suas costas.

─ Eu não consigo parar.

Sua voz ficou distante quando vi um rosto cheio de vida numa janela alta. Ele parecia tão feliz, tão distinto. Tão nobre...
Eu sabia que nada adiantaria, me senti culpada.

O calar da noite veio, e Mark continuava a perambular pelo Edifício Dakota. O vigia informava-lhe as horas sempre, e ele parecia estar irritado com isso.
Uma angústia invadiu meu corpo como nunca sentira antes. Era trágico esperar pelo fim.
Havia uma porta nos fundos destrancada. Foi sorte. Entrei, sendo barrada por um segurança,

─ Vocês não desistem mesmo, hein?

Eu o fitei com uma amargura enorme. Seus olhos verdes perderam-se em minha íris marejada.

─ Eu juro pra você que não quero nada, só não deixe John sair do edifício. Por favor. Mantenha-o aqui, prenda-o.

O jovem não era tão alto, mas por eu ter menos de um metro e sessenta, parecia monstruoso. Não tinha mais do que vinte e três anos, ele me soltou.

─ Por quê?

─ O cara que o espera está armado, ele dará cinco tiros nas costas de Lennon dentro de uma hora.

Li o nome em seu uniforme, era Hector.

─ Tem provas?

Joguei a foto e os dois jornais na cara dele, voltando a chorar como uma garotinha.

─ De onde você veio?

─ Do tempo, do céu, do inferno. Pare de tentar causar a morte quando estou tentando evitá-la.

Hector me puxou pela cintura, acompanhando os olhos na foto de Mark. Eram iguais.

─ Acredito em você. Vou te deixar entrar.

─ Pra quê?

─ Tenho um plano.

Arrisquei. O que restaria, afinal de contas? Subi algumas escadas, caminhando por corredores e paramos em um gabinete.
Eu o avistei, cerca de dois metros de distancia apenas. Ele olhou para Hector, e depois para mim.

─ Hm, o quê foi?

─ Senhor, essa senhorita precisa falar algo urgente.

─ Autógrafo? Eu a vi lá fora, Hector... Você não pode trazer garotas aqui só porque as achou bonitas...

─ Eu não quero nada. Eu só quero salvar a sua vida. Mas que droga!

Yoko apareceu a nossa frente, confusa com tudo.

─ Por que choras, querida?

Entreguei os papéis à ela, não era o bastante.

─ Pagou quanto ao jornal para publicar isso?

Respirei fundo, entregando a foto que os calaria. Yoko soltou um grito, os jornais caíram.

─ Eu nunca tirei uma foto assim em toda a minha vida, amor.

John olhou-me nos olhos, eu chorava tanto que sua imagem ficara embaçada. Devolveu-me os papéis, demonstrando preocupação.

─ George é um sacana por fumar mesmo.

─ Senhor, acho que podemos saber se ela está falando a verdade.






Cinco disparos, gritos, um corpo caído.



Estava falando a verdade? Sim, estava. E para os olhos do assassino, sua vítima levantou, olhando-o com desprezo.

─ Acha mesmo que meu último autógrafo seria para você?

Balas não atravessam coletes a prova delas, balas jamais poderiam entrar em contato com uma vítima que fora avisada. E o destino dele era o mesmo, trancafiado para sempre.

Eu havia avisado.

E como se nada acontecesse, tudo fora mistério. John declarara ter tido um sonho com alguém o avisando sobre a possível fatalidade.
 Ninguém lembrava de meu rosto. Apenas um.

─ Vou te ver de novo?

─ Não sei, talvez eu o veja velho. Mas sei que irá lembrar desse segredo.

Abraçou-me, como se sentisse uma saudade enorme. Beijou-me logo em seguida, voltando seus olhos tão verdes para os meus.

─ Prometo jamais esquecê-la.

A dor novamente chegou, e parecia não doer tanto por ser conhecida.

Abri os olhos ouvindo uma canção na voz de um sobrevivente. A letra parecia distante, ainda estava embriagada com o sono, mas um trecho pude captar:



Sonhei tão acordado que um anjo eu olhei, 
dizendo-me coisas das quais duvidei, 
ela tão paciente mostrou-me a prova, 
e eu tão inconsciente arrisquei-me com a cova.
Ela sumiu depois que sobrevivi, estaria ela 
ouvindo esta canção em algum lugar? 
Obrigado, querida. 
És a garotinha que sempre irei recordar...”

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

You're my favorite color

A vida sempre fora comparada aos jogos de tabuleiro. Onde o mais inteligente, que possuir uma estratégia melhor, conseguirá chegar ao outro lado. Um lado de vitórias, caminhos claros e finais melhores do que o jogador espera.
Há algum tempo atrás eu pensava que essa comparação era concreta. Mas como de costume, não vejo que algumas certezas tenham somente o lado certo.
Em um jogo de tabuleiro, por exemplo, as nossas peças podem atrapalhar uma jogada perfeita, porque ocupam aquele lugar que deveríamos guardar, mas que fora usado sem pensar direito.
Isto não é culpa de nosso adversário, é nossa. Só que é tão fácil culpar quem está a nossa frente, levando vantagem em absolutamente tudo, e mesmo assim, com aquele sorrisinho de canto que diz muita coisa quando seus olhos piscam com a mesma freqüência de um flertador de pôquer.

Jogos são jogos, e nunca sinônimos de piedade. Nos jogos você pode matar sem remorso, pois não custa nada. Tem gente que arrisca demais, arrisca esse jogo de verdade e acaba esquecendo que não somos feitos de plástico e nem de chumbo, que essas meras peças tem sentimentos, tem pensamentos e principalmente: Tem consciência dos próprios atos.
Uma frase relativa se quer a minha opinião, pois há tantos que fazem e decidem fugir para longe... O longe que acaba sendo o lugar dos prisioneiros da própria liberdade.

Hoje, não vejo as pessoas como peças. As vejo de modo totalmente diferente, cada uma é uma. E por mais parecidas que possam ser jamais serão iguais. Não há maneira de fazê-las terem os mesmos pensamentos.
Até a genética dá a sua ajuda em meu argumento tão simples, não?

Nunca seremos iguais...

Essa falta de igualdade é confundida, e por demência acabou sendo o palco principal de tragédias... Porque alguns jamais serão iguais, e se não tivermos uma ordem certa, o que será de nós?
Falta arriscar... Quem gosta tanto de arriscar, onde esteve nesse tempo? Por que não disse para nunca começar o que viria a ser algo terrível? Pobres diferentes... Distintos, sofredores, alguns vencedores.
Porque muitos perderam, porém, outros ganharam, ganharam a vida outra vez.





“A vida é como uma aquarela cheia de borrões. Por mais que o vermelho pareça com o cor de rosa forte, ele jamais deixará de ser o velho vermelho. Às vezes o azul vira verde, o verde azul, porém, sempre saberemos quem é o original.Nós somos as cores. A vida é como uma aquarela variada, porque as coisas simples, como a tinta, é que dão forma as mais belas obras de arte de nosso cotidiano.”

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

My face is my crime

“Eu fui preso por um crime que não cometi. Apareci em um lugar errado, numa maldita hora que fez com que minha vida terminasse junto de minha liberdade. Onde está a justiça? Enquanto o serial killer mata pessoas a todo instante, eu estou aqui. Preso em uma jaula, pareço um animal, sou tratado como um, e ninguém está dando a mínina para o que eu sinto. Porque assassinos não sentem, e pelo visto, nem os seus semelhantes.”

Outono é o tempo em que as folhas começam a cair. Todas morrem, assim como nós. Talvez estas tenham morrido por amor, apaixonam-se no verão, e quando não são correspondidas, morrem. Amor de verão. Quem nunca teve um? O clássico das comédias românticas, com aqueles atores que tem a química certa que o diretor procura.
As pessoas sabem o que vem depois, e mesmo assim não deixam de ver.

Mas quem irá ver a sua comédia romântica? Você tem uma? Ela transformou-se em drama? Ou você não vive em um filme de Hollywood?

Os atores principais sofrem do começo ao fim, a vida não é uma peça teatral. Ela é o reflexo dos ensaios. Tudo, absolutamente tudo pode acontecer quando as cortinas abrem. Porque essas cortinas são as portas que procuramos, as portas das quais um dia também irão se fechar.

─ Você está preso.

Prisão. Vivemos presos na infância, no colégio e no trabalho. Talvez, um dia em algum asilo. Nunca teremos uma liberdade concreta. Por isso a frase: “Cair na estrada” soa tão cobiçada pelas pessoas.

─ Por quê? Eu não fiz nada.

A mesma frase. Quando ouvimos o: “Eu preciso falar com você” logo pensamos que não fizemos nada. Mas fizemos, pois se não tivéssemos feito, não pensaríamos nisso logo de cara.

─ Diga isto para a vítima, ela o reconheceu.

Como? A dúvida é uma neblina que nos atormenta, amedronta e tira nosso sono. Quem dorme na neblina? A neblina da viagem que um dia faremos. A neblina dos corpos machucados que pairam sob o ar. A neblina do crime que insiste em ficar.

─ Mentira.

A única coisa que machuca, que fere, que dilacera, que mente. A mentira mente. Mente para a alma e para o coração.

─ É ele. Ele quem fez isso comigo.

A confusão de pensamentos que começam a nascer. Teria ele feito o que ela diz que ele seria capaz de fazer? Não, não conseguia se lembrar. Mas bebera em uma festa, talvez alguém o drogou? Como negar algo que não se tem certeza? E se realmente fizera? Se ela estivesse falando a verdade? O reconhecera. Vira seu rosto com horror, os olhos cheios de rancor, dor, quanta falta de amor.

─ Culpado.

As leis são claras, como as leis da natureza. Apesar de o homem interferir tanto no mundo, não há como parar de ter sede pela justiça. A viagem vai começar. Mesmo depois de sentir uma agulha perfurar a pele que julga ser mal lavada, ouviu uma voz em sua cabeça.
Muito clara. Soava como uma melodia que ouvira uma única vez na vida, ainda na infância.

"Os relógios são traiçoeiros, as pessoas não sabem analisar. Quando a noite vem, as pessoas malvadas começam a brincar. Brincam com o prazer, levitam em plenos pensamentos conspiratórios. Os crimes acontecem, e as pessoas começam a chorar.
Lágrimas de vítima, lágrimas de gente culpada, lágrimas de pessoas que encontram algumas almas rasgadas. Outras perdidas por não saberem o motivo ao certo. Não sabemos. Mas algo é notável. No mundo inteiro, em cada continente, em cada ilha e em cada geleira há pessoas com nossos rostos sem grau de parentesco. O sétimo número é aquele que diz ser o certo. Há sete faces, sete almas, sete corações e sete pessoas convincentes. Mas por onde você andou? Agora é tarde, pois não pode provar que das sete faces, és o sexto inocente."