domingo, 30 de setembro de 2012

The morality's cave

Se a maldade foi implantada em nosso código genético, seria possível reverter essa mutação? É preciso entender que ser selvagem nada tem a ver com a falta de piedade que os seres humanos têm demonstrado.
Faz parte da natureza o predatismo, não há choque em ver um leão matando uma zebra, seu instinto é esse.
Mas não há uma explicação sensata e racional para explicar o motivo de uma pessoa ferir outra.

É claro que faz parte do ser humano defender sua família, amigos e a si mesmo. O organismo é quem cuida desse lado defensivo em alguma situação de risco, é mais que autopreservação.
Ainda assim, quem dera se o mundo fosse feito por pessoas na defensiva e não somente no ataque sem alguma razão lógica.
O rótulo racional começa a ser duvidoso diante de tanta irracionalidade cometida pelos neurônios que deveriam auxiliar no pensamento, não em crimes com alto índice de crueldade.
Se a evolução criou um monstro frio e egoísta, não teria sido melhor continuar se expressando com uma linguagem não verbal nas paredes de um lar seguro e rochoso?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Put your arms around my life

Já não tenho aptidão para lidar com tantas cobranças e descontos em minha pele. Cada dia que passa tenho mais certeza que sinto náuseas de liberdade, mas esse vômito não chega nunca.
De que adianta chorar nos ombros daqueles que são despreocupados da minha realidade? Desabafos não são suficientes para fazerem ideia do que venho passando nos últimos anos.
E se faço menção do autor de meu desespero, me julgam mal, pois não carrego os anos da experiência para sempre ter razão, é verdade.
Mas se os jovens são tão tolos e desmerecidos da razão, eu pergunto: E quando a idade era jovem? Será que os argumentos ditos aos gritos fariam tanto sentido como são proferidos nesse instante? Mas é claro que fariam.
Já não há o senso da igualdade nessas questões há muito tempo. E os herdeiros do repúdio nadam na corrente que vai direto para as pedras. Sorte de quem não agonizou em sua morte e se foi sem encarar os olhos do sacrifício.
Até mesmo a idade está corrompida, sendo que jamais fora livre para dizer o que sentia, repeliu seu sentimento a não ser o pessimismo que atinge todos os caminhos, exceto sua própria rota.
E eu lhes pergunto se esses dias irão terminar de uma vez ou se o tempo dirá quando for o momento certo para começar a andar.
O tempo anda, corre, se apressa e para. Doente de tanto esperar por sua maratona que atrasou. E esse desespero é tolo e meticuloso, pois veste máscaras diversas, tanto que nem mesmo dois anos são suficientes para mostrar todo seu vestuário.
Há tantos hematomas em meu corpo que é preciso saber onde observá-los. Uns estão invisíveis até para meus mais sólidos confidentes e outros escancarados e gritantes, esperando serem invadidos pelos companheiros, para enfim se deitar e chorar. Pelo dia que se fora sem ser realmente vivido.
A ânsia que aos poucos clamava por oxigênio, agora vira soluço e se afoga nesses mares de incertezas. O horizonte está muito distante e jamais sentirá um afago que desperte a validade de seu viver, talvez daqui uns anos quando o silêncio encher o frasco da esperança macabra. Deixo que julguem o quanto quiserem, a realidade de cinismo pouco me importa.
Mas não pense que essas artérias são justas pelo fato de existir, não. Já que pouco se fala nisso, por que entender o desnecessário? Seria como atravessar um labirinto com paredes imaginárias, diferente da realidade aqui vivida.
As paredes só não são mais sólidas do que o desprezo que nasceu no resquício de um nome que pouco importa agora.

sábado, 1 de setembro de 2012

And me? I'm here.

Neste teto de dois metros noto que os centímetros já não estão tão alinhados assim.
As medidas que aparentemente me dão conforto, me sufocam aqui dentro.
Há grades por todos os lados, negras como está hoje lá fora.
Quando a noite é escura, o breu vai se divertir.
E eu? Aqui.

A televisão já vai começar a mostrar o programa diário das seis da tarde.
É muita sujeira para pouca informação. Não quero ser telespectador,
mas se me recuso a ver o espetáculo, me apunhalam com mal dizeres.
Os jornaleiros fecham suas lojas e vão se divertir.
E eu? Aqui.

Em meu balanço posso ir mais longe, fui vetado daquilo que almejei,
já sou velho para as restrições que me aplicam em vão.
Não há como provar se o teste não me é oferecido.
Os semelhantes foram se divertir.
E eu? Aqui.

Sonhos incompletos e roteiros nunca escritos,
é passatempo diário de um viajante sem passagem.
As aparências podem enganar outras populações, mas
a mim nunca enganou. Eles não foram se divertir e é
por isso que eu estou aqui.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A pseudo-analysis

Se ela é tão equilibrada, seria eu deficiente do labirinto? A figura feminina que rodopia feito peão, mas que é mais graciosa do que um objeto que custa pouco.
Talvez a cidade não seja maravilhosa, ela não é nada comparada ao seu bom humor quando entra na loja de discos, nem mesmo os bordéis mais tradicionais são tão eróticos feito o seu cruzar de pernas.
Há uma linha tênue, quase invisível  entre os girassóis e seu sorriso ao deliciar-se com suco de laranja.
A biblioteca Nacional do Rio de Janeiro abandonaria suas prateleiras para que pudesse ser tocada pela curiosidade que há em seus dedos.
Se fosse nascida, a revolta da Chibata não ocorreria por castigos físicos. Que marinheiro não gostaria de apanhar por ela? Se pedisse, uma âncora seria colocada no lugar do Cristo só porque ela adora a moda náutica que Coco Channel criou nos anos quarenta.
Se seu vestido voa, não há nada que ouse se mover, ela não faz ideia de seu poder.
Frequento uma loja de discos desde a adolescência, tento conseguir um sorriso do dono desde então, na época boêmia as prostitutas pareciam o símbolo ideal de erotismo.
Os girassóis se movimentam por um amor platônico pelos raios ultravioleta, as laranjas que escolhi apodreceram antes do meu notar.
As folhas dos livros me cortam e sua poeira serve como defesa para minhas mãos grosseiras.
Nenhum marinheiro apanharia por mim, mas me arrebentariam se eu resolvesse mudar o Cristo de lugar.
Quando caminho, panfletos inúteis são jogados em meu rosto.


Ela é um anjo porque eu sou um demônio.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

There's no way to arrive

Ninguém pode falar tão bem da solidão como uma pessoa solitária. Será? Para sentir solidão é necessário que algo esteja vivo? A respiração é tão indispensável assim? Visitei alguns lugares que acreditem ou não, esbanjam mais solidão do que muita casa abandonada por falência nos anos dourados.

E se falarmos hoje de ferrovias? Muitas pessoas não tem nem ideia de que o Brasil era um país onde as ferrovias mandavam! E literalmente falando! Eram trens de carga gigantescos, com vagões que transportavam coisas variadas, mas hoje não transportam nada além da lembrança de uma utilidade que um dia foi essencial.
Elegantes com seus chapéus para se protegerem do sol, as moças apostavam nos laços e em rendas para que seu estilo discreto e comum fosse chamativo para algum rapaz de cartola e gravata. Houve muitos olhares e até certo atrevimento por parte dele. Imaginem só! Sentar ao lado da moça sem dizer nada. Ou pior, comunicar (isso mesmo, apenas comunicar) que iria se sentar ali mesmo.

Quantos vagões foram testemunhas desse crime terrível contra os tempos?

Acredito que a criminosa nessa história foram as rodovias. Ah! Malvadas! Por que acabaram com todo o glamour dos trilhos? Com seu asfalto quente, contribuindo para as ilhas de calor das cidade metropolitanas. Quem foi que as deixou invadir assim as nossas vidas? Maldito Hitler! Quem disse que ele poderia lotar a cidade de fuscas? Não lembro de uma permissão assinada por você, caro Vargas.

Se estávamos do lado dos aliados por opressão dos Estados Unidos, oh! Tão poderosos! Como o senhor deixou que os fuscas lotassem o Rio de Janeiro? Céus! Por quê?

Hoje as ferrovias choram por seus trilhos enferrujados. Cidade natal do tétano e das velharias que aparentam ser mal assombradas. Há tanta fumaça cobrindo nossas nuvens que internamente os vagões dão risada de nossas faces, eles podem já que foram rejeitados sem aviso prévio.

Para os inconformados que ainda aderem aos trilhos sobreviventes desse massacre ingrato deixo o meu abraço. Sou do time de vocês. A janela que revela os trilhos sempre foi minha melhor amiga, acreditem. Os trilhos são fortíssimos, até mesmo os que estão quebrados. Não há como dizer que um material é fraco se você o joga contra a parede durante muito tempo.

"Se o meio em que vivemos depende de nossas ações por que diabos estamos matando tudo de uma vez? Somos homicidas da vida alheia, da própria vida e da vida de quem amamos. Olhei para o alto e vi um céu rancoroso. Seu cinza não lembrava o prateado, mas sim o chumbo. Como balas de canhão prontas para cair em cima dessa cadeia de mal amados. Hoje é um dia importante para essa aquarela opaca, é dia de lavar os pincéis. E durante tal processo, notar que as cerdas foram ralo abaixo. Se não cuidas de sua pintura e do modo em que ela é feita, a natureza e o tempo lhe roubam a ferramenta necessária."

sábado, 7 de julho de 2012

Lucky drummer

─ Ei, ei. Você é muito talentoso. Não ligue para elas.
─ Fácil falar isso. Você é tão adorado por elas que essas meninas te dariam até a virgindade se pudessem embalar em uma caixa.
─ Opa! Eu gosto desse tipo de caixa.
─ Para, John. Estou tentando animar ele.
─ Pelo amor, Paul. Elas vão adorar esses olhinhos claros quando o ódio delas sumirem.
─ Nisso eu concordo. O Pete nem era tão bonito assim.
─ E qual é teu conceito de beleza, George?
─ Meu espelho.
─ Hahahaha, tá se achando!
─ Sério. Sou tão bonito que se eu tiver um filho, ele será igual a mim. E você vai se assustar quando for tocar com ele, McCartney.
─ Nos seus sonhos, George. Hahaha.
─ Pelo menos você tem boas piadas, Ringo. E se não funcionar, a cada risadinha não dada, uma menina pode escolher um anel seu.
─ É mesmo!
─ Verdade!
─ Não! Para, eu não vou dar meu anel pra elas.
─ Então dá pra mim?
─ JOHN CALA A BOCA!
─ Hahaha, é só uma gracinha Paul, ai ai!
─ Vou fazê-las gostarem de mim pelo meu talento mesmo. Eu já tenho sorte. Que ela ande ao meu lado, então.

E andou até hoje, não é mesmo?

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Be brave


Se ele fosse um lunático, que mal teria? A Lua é tão admirável que desprezar seus tão sonhadores habitantes, parece muito contraditório, não?

─ Querido, feliz aniversário! Suas nobres tias da Escócia lhe mandaram presentes!
─ Obrigado, mãe. É mesmo? Vou ligar para elas agradecendo assim que voltar.
─ Muito bem, agora vá. Seus amigos estão te esperando. 
─ Ok, tchau.
─ Tchau, meu amor!
─ Bom dia, senhor.
─ Bom dia, meu rapaz.
─ Bom dia, senhora.
─ Bom dia, filho! Ah, esses jovens quando sentam ao nosso lado, mal olham nossa cara. Sua mãe te criou bem!
─ Obrigado, senhora.
─ Que gracinha!

Dentro de todas as normalidades, tudo estava no plano de rota. E as coisas eram boas assim, mas a gente sempre espera por algo novo, não é? E acreditem ou não, pode ser bem surpreendente.

─ Eu vou descer.
─ Mas não é a sua parada, menino.
─ Não importa, eu vou descer assim mesmo.
─ SENHOR! SENHOR!
─ Mas pra quê tanta gritaria, meu Santo Deus?
─ De onde ele vem?
Isso aí?
─ Sim, senhor. De onde?
─ Ah. Comprei em um leilão. Mas não presta! Tem medo das pessoas, atacou vários espanhois.
─ Ele veio da Espanha?
─ Sim, das grandes touradas! Mas acabou se escondendo e o antigo dono não quis mais!
─ E teve mais?
─ Que nada! Todos viraram troféu.
─ Quanto pagou por ele?
─ Olha, moleque... Eu não vou vender ele. Deu trabalho pra mandar trazer! 
─ Quanto pagou por ele, senhor?
─ Duzentos euros.
─ Eu compro.
─ Eu não estou vendendo.
─ Eu compro do senhor por quinhentas libras.
─ E você lá tem quinhentas libras na sua casa?
─ Em casa não, mas no meu bolso. Toma.
─ De onde você tirou?
─ Minhas tias me deram.
─ E por um acaso você é rico?
─ Não. Elas moram na Escócia. Casaram com condes.
─ E por que te deram todo esse dinheiro?
─ Pelo meu aniversário.
─ E você vai gastar tudo com isso aí? Não deveria estar comprando roupas, sapatos ou coisas assim?
─ Não. Eu deveria gastar com o que achasse melhor. Então, temos um acordo?
─ Pense bem, não vou lhe devolver o dinheiro!
─ E nem eu o touro!

─ Por que você demorou tanto? Achei que íamos ver aquelas guitarras!
─ Você tem alface aí?
─ Aqui? Em casa? Por quê? Você não almoçou?
─ Almocei, o coragem que não almoçou!
─ Quem?
─ O Coragem, George. Eu não sei o que dar para ele...
─ Quem é Coragem, Paul?
─ Meu presente!
─ Mas que...
─ Olha.
─ VOCÊ.... Comprou um touro?
─ Comprei. O antigo dono dele era rude.
─ E como devem ser? Deus, Paul! Sua mãe vai te matar.
─ Por quê? Ela disse que eu poderia comprar o que eu quisesse.
─ Mas se você queria um animal, por que não comprou um cachorro ou adotou?
─ É que o dono dele estava incomodando o Coragem. Ele passou por muita coisa já.
─ Ai, ai. Acho que tenho alface na geladeira.
─ Maravilha, Ge! Você é demais!
─ Ouviu, Coragem? O almoço tá pronto!

E Coragem viveu tão feliz, que passou a média de seus descendentes espanhóis. Todos os dias demonstrava gratidão. E o menino de expressão serena, amou o seu presente como nunca amara outro. Era seu aniversário e sabia que tinha alguém para comemorar.