domingo, 24 de fevereiro de 2013

What you have in your pocket?


─ Case comigo.
─ Haha, você não fala isso de verdade.
─ Garanto que sim!
─ É, pensando bem eu não duvidaria. Só que tem um problema.
─ Você já é casado?
─ Não, não sou. O problema é que há mais pedidos.
─ Não importa os outros, deixe estar.
─ Você é mesmo uma garota muito bem humorada.
─ Não estou tentando ser engraçada, oras!
─ Eu sei que não, desculpe. Mas é que eu não estava mentindo quando mencionei outros pedidos.
─ Muitos?
─ Muitos.
─ Quantos?
─ Milhares.
─ Milhares?
─ Talvez um pouco menos, mas...bom quase isso.
─ Isso não muda muita coisa.
─ Ah, não? hahaha.
─ Não, oras.
─ E por que não?
─ Você só tem que escolher um. É como entrar numa loja de vinis, há centenas! Mas no fundo você sabe que só precisa de um.
─ Bem interessante essa comparação.
─ E então você me faria uma música.
─ Você quer uma música?
─ Toda garota sonha com uma música. Nem que seja ruim, mas feita para ela ou pelo menos tendo o nome dela.
─ Então quer dizer que você sonha com uma música?
─ Sua.
─ Ah!
─ Você me iguala a todas as outras, não é?
─ Não. Se eu fizesse isso, teria pedido para a segurança te tirar do meu portão agora.
─ ...C -c omo você sabe?
─ Eu estou na sacada.
─ Mas você só fica na sacada quando está compondo.
─ Quem te disse isso?
─ As revistas.
─ Hmm...
─ Você está compondo?
─ Estava.
─ OH MEU DEUS. E então?
─ E então o quê?
─ Como é? A música! Pelo amor de Deus, me diga.
─ Não está terminada ainda, mas... se eu precisasse de alguém 
Já entendi, estou te atrapalhando.

E George sorriu quando ela desligou o telefone.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

They can drink time

Eram mais ou menos seis da tarde. O sol estava lá em cima cobrindo areia e mar, mostrando quem era que deixava as luzes acesas do céu para que as crianças pudessem construir seus castelos de areia. Uma onda vinha e levava tudo. Era como uma lição. Tudo que foi construído com esforço e diversão, um dia será destruído pela natureza. É bom preparar os pequenos, pois os grandes parecem não se importar muito com os ensinamentos que as gerações futuras precisam.

─ Por que você só chega na praia tarde?
─ Tarde? Não é tarde para mim.
─ Mas já passou das cinco.
─ E daí? O horário de verão diz que ainda são cinco. E eu não estou na praia.
─ Estamos numa montanha com areia e água?
─ Não. Estamos no calçadão da praia. Onde as pessoas andam de bicicleta, paqueram e correm com seus animais de estimação.
─ E por que estamos aqui?
─ A areia machuca a minha pele. Tá, pode rir. É mesmo uma viadagem, mas foda-se. Eu não gosto de pisar na areia.
─ Nem sete ondas no mar?
─ Nem isso. Nadar em água, sal, urina e outras coisas que prefiro não lembrar...
─ Mas que fresca!

A brisa começara a ficar mais fria, o fim de tarde se aproximava. Havia pessoas juntando seus guarda sois que já estavam fechados há muito tempo. Não havia necessidade de usá-los, depois de um tempo o sol não queima tanto quanto o do meio dia e o das quatro horas.

─ Você não se queima nem com mormaço, né?
─ Não, eu gosto de manter as coisas iguais. Se eu quiser pegar cor momentânea, uso o tal do bronzer. Hoje a maquiagem te transforma em qualquer pessoa.
E por que você está de óculos de sol?
Porque meus óculos tem esse tom de marrom, mas as lentes são amareladas. E quando os uso, parece que filtro todas as imagens como se estivéssemos no passado. As fotografias de polaroids ou mesmo lomos, sabe? Elas tem aquela cor que hoje chamamos de filtro vintage. Mas é muito bom ver o movimento das pessoas.
─ É estranho isso, eu sempre penso que nos anos setenta, as imagens eram amarelas como nas fotografias.
─ Isso é normal! Quando eu assistia os filmes do Chaplin achava que tudo já foi branco e preto. Existe coisa mais absurda e genial? Imagine tudo com apenas duas cores!
─ Não seria triste?
─ Não, seria clássico...
─ Lembrei de outra coisa.
─ De quê?
─ Das feiras livres. Já pensou isso nos anos setenta? Se tudo fosse amarelo, nas fotos as frutas parecem tão mais saborosas.
─ Sim, dá essa sensação porque sabemos que elas não existem mais. A fotografia é tão divina que te possibilita imortalizar as coisas. É meio masoquista até, você sente saudades e vai lá e a coisa continua lá! Nunca irão inventar algo que faça as coisas saírem das fotos?
─ Não, se não as pessoas não iriam morrer mais.
─ É... no fim todos nós temos que morrer.
─ Dá tempo de tomarmos uma tequila?

"Na linha reta do horizonte os últimos raios de sol se despediam das pessoas. Alguns esperançosos que eles voltassem amanhã, outros com uma tristeza por terem de partir. A despedida da praia nunca será prazerosa, mesmo para aqueles que a frequentam somente durante o fim da tarde. Nenhum outro lugar te oferecerá a liberdade. São tantos grãos, gotas, conchas e seres... Somos nós e esse quadro vivo"



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Soul's doctor

─ Sabe Ringo... eu sempre quis ser médico. Acredita? Desde pequeno eu queria um carrinho, mas não qualquer um. Eu queria uma ambulância! Daquelas com cruz vermelha... Minha mãe me deu uma aos três, foi muito bom. Brinquei até a borracha dos pneus gastar, como se fossem pneus de verdade. Gastei toda borracha, mas o meu sonho ainda não havia sido gasto. Quando comecei a encarar as matérias na escola, como biologia, eu tinha certeza que era exatamente aquilo que eu iria fazer.

─ E em qual área você queria estar?

─ Eu seria um bom pediatra, todas as crianças gostavam muito de mim. Raramente me metia em brigas.

─ Eu seria ginecologista.

─ E acha que iria pegar só carne boa, John?

─ Panela velha também faz comida boa, Paul.

─ Mas e se a panela velha está com muita sujeira, hein?

─ Eu adoro um bom tempero.

─ Que nojo. Você é um porco do caralho. Hahaha!

─ Mas e aí? Você queria ser médico e não foi.

─ Óbvio que ele não foi, a não ser que ele dê plantão quando a gente tá trepando com as fãs.

─ Não, haha. Eu não faço esse tipo de plantão.

─ Então?

─ Eu vi que tinha que dominar matérias que eu não gostava. E meu repudio era maior do que meu sonho. Quando cheguei em casa,  um tio chegou com uma guitarra velha que havia encontrado no lixo. Ele arrumou novas cordas e pintou. Ficou bonitona.

─ E ele te deu?

─ Que nada. Eu tive que pagar. Mas foi por um preço justo. Hoje ele faz réplicas das guitarras que nós tocamos.

─ Que idade você tinha?

─ Tinha uns treze.

─ Se você estivesse com ela ainda, muita gente iria querer comprar.

─ Não estou com ela agora.

─ Agora?

─ É, John. Ela está lá no palco.

"Se ele pudesse salvar vidas,  ele salvaria. E não deixou de fazer tal ato nobre, porém, de uma forma diferente. George salvou vidas de forma plena. Salvou almas de suicídios e corações de infarto pós trauma. Salvou a vida de uma geração que estava presa em sua casa. Salvou pessoas que anos mais tarde estaria escrevendo sobre ele."

domingo, 18 de novembro de 2012

Dear, Âmbar.

És ela e somente ela que me aflige esse peito velho.
Há marfim em sua boca, acompanhado da preciosidade de seu sorriso.
Os cabelos são de ônix, a noite o plagiou por cobiça.
O vento invade tanta formosura em forma de dança.
Venta, venta, venta.
E se move o doce balanço de suas madeixas.
Sua pele é feita de pérolas, mas nenhuma ostra as acariciou.
Quem dera se tamanho bicho misterioso obtivesse o prazer
que tanto almejo nessa vida de martírios.
E visto que meu estado não é dos mais saudáveis, clamo por sua misericórdia.
Esmeraldas são seus olhos, lapidadas pelas lágrimas de ternura que os banha.
Em suas veias correm os rubis, gritantes e vivos. Pulsam feito a vontade que me cerca,
me arrebenta só de pensar que por ela morrerei a suspirar.
A voz, uma safira. Muda a cada tom.
Semana passada estava azul, ontem lilás e hoje cor-de-rosa.
De tantos tons, raridades e formas, abstenho-me neste breve contexto.
Sois anjos agora, quando a morte em sua imensidão a alcançou.
Para ela valiosa como a causa de tantas guerras civis, para mim o desespero.
A dor inquebrável, como pulseira de diamantes.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Death's blow

Em meio ao deleite profundo de seu sono pesado, jazia seu corpo na cama de lençóis brancos. Talvez fossem de mil fios egípcios ou até mesmo de nenhum. A expiração quente que aquecia parcialmente parte de seu colo foi acelerando aos poucos, saindo de seu estado de paz até a dura realidade.
Sua íris tinha uma coloração semelhante ao mel, porém, não tão enjoativa quanto o resultado de um trabalho árduo das abelhas. Seus dedos fecharam-se nos lençóis macios, quase sem força. Jamais acordava com força, isso nunca acontecia e hoje não seria diferente.
Procurou seus chinelos na cama ao sentar-se na beirada, mas não os encontrou. Onde estariam?

Pouco importa.

O chumbo que presenciava sua cabeça, agora doía. Mas nada como um analgésico para melhorar o dia. De perna em perna, direcionou-se para a porta.

"Track."

Girou a maçaneta, nada aconteceu.

"Track" 

E nada. A chave não estava na fechadura, não havia ninguém em casa. Morava sozinha, onde ela poderia estar? Objeto traiçoeiro que vinga todos os amantes negados.
Locais fechados a deixavam desconfortável, um início de claustrofobia? Quem sabe? Ainda estava escuro lá fora devido ao repugnante horário de verão. A figura de uma jovem cansada fora refletida no espelho de moldura medieval dourada, mas a imagem não lhe surtiu tanto efeito. Sentia-se assim mesmo, cansada.
Dobrou os joelhos e abaixou-se para olhar abaixo de sua cama, talvez a chave tivesse ido parar lá, por algum acaso dessa vida.

Não estava.

Uma leve dormência alcançou suas costas, fazendo com que a espinha dorsal não trabalhasse por alguns segundos. Ela então repousou as pernas abaixo da cama, apoiando os braços no colchão. Quando seus olhos direcionaram-se para a porta na esperança ridícula de que a chave estivesse lá, gelou.

A figura de um homem estava parada diante de si.

De estatura alta, pele branca, vestes negras e cartola, ele sorri. Revelou dentes perfeitos semelhantes à sua cor.

─ Quê faz aqui?
─ Não tens o direito de perguntar isso, mas se és atrevida para fazê-lo, deverei lhe questionar algo.
─ Saia já daqui. Eu vou chamar a polícia.

Mas quando virou o pescoço para procurar o telefone, não o encontrou. Teria tido o mesmo destino de sua chave?

─ Sempre assim, essas novatas... Como se chama?
─ Olha moço, é sério. Destranca essa porta.
─ Para quê?
─ Eu quero sair daqui.
─ Mas não pode.
─ Claro que posso.
─ Não, você não pode.
─ Prove que não.

O homem levou a mão ao bolso interno de suas vestes, retirando de lá a pequena chave cor de cobre que ela tanto procurava. Deu alguns poucos passos para trás, sem dar as costas à ela. Colocou-a no buraco da fechadura e assim que girou-a, o eco do trinco destravado soou no quarto. Quando abriu a porta, os olhos da jovem foram tomados por pavor.
Havia outra porta, idêntica à de seu quarto encarando-a.

─ Mas o quê? Abra!

Como um robô, o homem repetiu o processo. E outra porta apareceu.

─ Isso é algum tipo de brincadeira?
─ Não, não é.
─ Por que não me deixa sair?
─ Não sou eu quem não a deixa.

Ainda com metade do corpo no chão, abaixo da cama e de braços apoiados no colchão sentiu-se vulnerável. Um sentimento que se misturava a angústia de que estava se atrasando para algo, qualquer coisa que fosse. Levantou-se de supetão, abrindo as cortinas. Essas abriram normalmente, acalmando seu coração que já esperava por tecidos materializados do nada. Mas quando abriu a janela, outra a encarava.

E outra. E outra. E outra. E outra. E outra...

O homem havia sumido, mas deixara a chave no trinco. Correu até ela, tropeçando ao pé da cama, onde bateu o joelho direito com força.

─ Porra!

Girou a maçaneta,  mas outra porta a encarava.

E outra. E outra. E outra. E outra. E outra...


"Quando eu lhe disse que haveria algum tipo de luz em sua vida, nunca quis dizer que seria aquela luz onde todos dormem. Era aquele fiasco de raio de sol que atravessa nossas cortinas. Aquele abajur que está para queimar, aquela luz colorida natalina que você tanto adora. Por algum tempo você dormiu no escuro, mas em outros tempos havia claridade para lhe acompanhar. Pergunto-me se alguém está segurando algum tipo de vela neste quarto escuro, pois você o teme. Eu sei disso. mas não há nenhuma possibilidade de que a luz dos teus olhos ilumine este lugar?" 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Write down that idea

─ Sabe, eu fico imaginando como tudo seria se eu não tivesse vindo morar com a tia Mimi.
─ Ué, como assim?
─ Se eu tivesse ficado com o meu velho, se nunca conhecesse de fato a dona Julia, como tudo seria?
─ Acredito que bem diferente.
─ Será?
─ Não sei, só disse por breve reflexão mesmo.
─ Hmm. Talvez eu não sentisse tanta falta dela, essa dor que vem dentro de repente às três horas da madrugada. É foda cara, eu não posso nem pegar o violão porque a tia Mimi não deixa, diz que os vizinhos irão chamar a polícia. E se pego e toco baixo, ela cutuca meu chão com o cabo da vassoura. Então descubro que não tem polícia e nem nada, ela só estava querendo dormir.
─ É compreensível. Acho que ela está abalada também. Mesmo com a luta dela em te tirar da dona Julia, ela gostava da irmã.
─ Gostava, só é um pouco durona.
─ E parece que genética fala tudo, não?
─ Se foder com isso, Paul. ─ Um breve sorriso pela primeira vez, durante a conversa.
─ Mas por que você está pensando nisso?
─ Não sei, eu penso em muitas coisas. Estou parado e minha cabeça vai longe. Desde elefantes africanos até o Vietnã.
─ Ué, e por que logo o Vietnã?
─ Também não sei, mas tenho uma simpatia estranha com ele. Como se algo fosse acontecer, e eu quisesse cuidar.
─ Do Vietnã?
─ Também, mas das pessoas. Eu gosto de cuidar, e gosto que me escute.
─ Sem problemas, eu meio que sabia que iria me chamar hoje.
─ Ah, é? Eu ando te chamando muito.
─ Sim, meu pai já perguntou porque ando com as roupas rasgadas.
─ Sou o ativo, hein?
─ Hahaha, palhaço! É foda subir nessa árvore todos os dias, acho que estamos acordando os pássaros.
─ Existem pássaros com insônia também.
─ Mas existem pássaros dorminhocos.
─ E existem pássaros pretos.

Silêncio...

─ Espera... Você tem uma caneta aí?

domingo, 30 de setembro de 2012

The morality's cave

Se a maldade foi implantada em nosso código genético, seria possível reverter essa mutação? É preciso entender que ser selvagem nada tem a ver com a falta de piedade que os seres humanos têm demonstrado.
Faz parte da natureza o predatismo, não há choque em ver um leão matando uma zebra, seu instinto é esse.
Mas não há uma explicação sensata e racional para explicar o motivo de uma pessoa ferir outra.

É claro que faz parte do ser humano defender sua família, amigos e a si mesmo. O organismo é quem cuida desse lado defensivo em alguma situação de risco, é mais que autopreservação.
Ainda assim, quem dera se o mundo fosse feito por pessoas na defensiva e não somente no ataque sem alguma razão lógica.
O rótulo racional começa a ser duvidoso diante de tanta irracionalidade cometida pelos neurônios que deveriam auxiliar no pensamento, não em crimes com alto índice de crueldade.
Se a evolução criou um monstro frio e egoísta, não teria sido melhor continuar se expressando com uma linguagem não verbal nas paredes de um lar seguro e rochoso?