domingo, 18 de novembro de 2012

Dear, Âmbar.

És ela e somente ela que me aflige esse peito velho.
Há marfim em sua boca, acompanhado da preciosidade de seu sorriso.
Os cabelos são de ônix, a noite o plagiou por cobiça.
O vento invade tanta formosura em forma de dança.
Venta, venta, venta.
E se move o doce balanço de suas madeixas.
Sua pele é feita de pérolas, mas nenhuma ostra as acariciou.
Quem dera se tamanho bicho misterioso obtivesse o prazer
que tanto almejo nessa vida de martírios.
E visto que meu estado não é dos mais saudáveis, clamo por sua misericórdia.
Esmeraldas são seus olhos, lapidadas pelas lágrimas de ternura que os banha.
Em suas veias correm os rubis, gritantes e vivos. Pulsam feito a vontade que me cerca,
me arrebenta só de pensar que por ela morrerei a suspirar.
A voz, uma safira. Muda a cada tom.
Semana passada estava azul, ontem lilás e hoje cor-de-rosa.
De tantos tons, raridades e formas, abstenho-me neste breve contexto.
Sois anjos agora, quando a morte em sua imensidão a alcançou.
Para ela valiosa como a causa de tantas guerras civis, para mim o desespero.
A dor inquebrável, como pulseira de diamantes.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Death's blow

Em meio ao deleite profundo de seu sono pesado, jazia seu corpo na cama de lençóis brancos. Talvez fossem de mil fios egípcios ou até mesmo de nenhum. A expiração quente que aquecia parcialmente parte de seu colo foi acelerando aos poucos, saindo de seu estado de paz até a dura realidade.
Sua íris tinha uma coloração semelhante ao mel, porém, não tão enjoativa quanto o resultado de um trabalho árduo das abelhas. Seus dedos fecharam-se nos lençóis macios, quase sem força. Jamais acordava com força, isso nunca acontecia e hoje não seria diferente.
Procurou seus chinelos na cama ao sentar-se na beirada, mas não os encontrou. Onde estariam?

Pouco importa.

O chumbo que presenciava sua cabeça, agora doía. Mas nada como um analgésico para melhorar o dia. De perna em perna, direcionou-se para a porta.

"Track."

Girou a maçaneta, nada aconteceu.

"Track" 

E nada. A chave não estava na fechadura, não havia ninguém em casa. Morava sozinha, onde ela poderia estar? Objeto traiçoeiro que vinga todos os amantes negados.
Locais fechados a deixavam desconfortável, um início de claustrofobia? Quem sabe? Ainda estava escuro lá fora devido ao repugnante horário de verão. A figura de uma jovem cansada fora refletida no espelho de moldura medieval dourada, mas a imagem não lhe surtiu tanto efeito. Sentia-se assim mesmo, cansada.
Dobrou os joelhos e abaixou-se para olhar abaixo de sua cama, talvez a chave tivesse ido parar lá, por algum acaso dessa vida.

Não estava.

Uma leve dormência alcançou suas costas, fazendo com que a espinha dorsal não trabalhasse por alguns segundos. Ela então repousou as pernas abaixo da cama, apoiando os braços no colchão. Quando seus olhos direcionaram-se para a porta na esperança ridícula de que a chave estivesse lá, gelou.

A figura de um homem estava parada diante de si.

De estatura alta, pele branca, vestes negras e cartola, ele sorri. Revelou dentes perfeitos semelhantes à sua cor.

─ Quê faz aqui?
─ Não tens o direito de perguntar isso, mas se és atrevida para fazê-lo, deverei lhe questionar algo.
─ Saia já daqui. Eu vou chamar a polícia.

Mas quando virou o pescoço para procurar o telefone, não o encontrou. Teria tido o mesmo destino de sua chave?

─ Sempre assim, essas novatas... Como se chama?
─ Olha moço, é sério. Destranca essa porta.
─ Para quê?
─ Eu quero sair daqui.
─ Mas não pode.
─ Claro que posso.
─ Não, você não pode.
─ Prove que não.

O homem levou a mão ao bolso interno de suas vestes, retirando de lá a pequena chave cor de cobre que ela tanto procurava. Deu alguns poucos passos para trás, sem dar as costas à ela. Colocou-a no buraco da fechadura e assim que girou-a, o eco do trinco destravado soou no quarto. Quando abriu a porta, os olhos da jovem foram tomados por pavor.
Havia outra porta, idêntica à de seu quarto encarando-a.

─ Mas o quê? Abra!

Como um robô, o homem repetiu o processo. E outra porta apareceu.

─ Isso é algum tipo de brincadeira?
─ Não, não é.
─ Por que não me deixa sair?
─ Não sou eu quem não a deixa.

Ainda com metade do corpo no chão, abaixo da cama e de braços apoiados no colchão sentiu-se vulnerável. Um sentimento que se misturava a angústia de que estava se atrasando para algo, qualquer coisa que fosse. Levantou-se de supetão, abrindo as cortinas. Essas abriram normalmente, acalmando seu coração que já esperava por tecidos materializados do nada. Mas quando abriu a janela, outra a encarava.

E outra. E outra. E outra. E outra. E outra...

O homem havia sumido, mas deixara a chave no trinco. Correu até ela, tropeçando ao pé da cama, onde bateu o joelho direito com força.

─ Porra!

Girou a maçaneta,  mas outra porta a encarava.

E outra. E outra. E outra. E outra. E outra...


"Quando eu lhe disse que haveria algum tipo de luz em sua vida, nunca quis dizer que seria aquela luz onde todos dormem. Era aquele fiasco de raio de sol que atravessa nossas cortinas. Aquele abajur que está para queimar, aquela luz colorida natalina que você tanto adora. Por algum tempo você dormiu no escuro, mas em outros tempos havia claridade para lhe acompanhar. Pergunto-me se alguém está segurando algum tipo de vela neste quarto escuro, pois você o teme. Eu sei disso. mas não há nenhuma possibilidade de que a luz dos teus olhos ilumine este lugar?" 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Write down that idea

─ Sabe, eu fico imaginando como tudo seria se eu não tivesse vindo morar com a tia Mimi.
─ Ué, como assim?
─ Se eu tivesse ficado com o meu velho, se nunca conhecesse de fato a dona Julia, como tudo seria?
─ Acredito que bem diferente.
─ Será?
─ Não sei, só disse por breve reflexão mesmo.
─ Hmm. Talvez eu não sentisse tanta falta dela, essa dor que vem dentro de repente às três horas da madrugada. É foda cara, eu não posso nem pegar o violão porque a tia Mimi não deixa, diz que os vizinhos irão chamar a polícia. E se pego e toco baixo, ela cutuca meu chão com o cabo da vassoura. Então descubro que não tem polícia e nem nada, ela só estava querendo dormir.
─ É compreensível. Acho que ela está abalada também. Mesmo com a luta dela em te tirar da dona Julia, ela gostava da irmã.
─ Gostava, só é um pouco durona.
─ E parece que genética fala tudo, não?
─ Se foder com isso, Paul. ─ Um breve sorriso pela primeira vez, durante a conversa.
─ Mas por que você está pensando nisso?
─ Não sei, eu penso em muitas coisas. Estou parado e minha cabeça vai longe. Desde elefantes africanos até o Vietnã.
─ Ué, e por que logo o Vietnã?
─ Também não sei, mas tenho uma simpatia estranha com ele. Como se algo fosse acontecer, e eu quisesse cuidar.
─ Do Vietnã?
─ Também, mas das pessoas. Eu gosto de cuidar, e gosto que me escute.
─ Sem problemas, eu meio que sabia que iria me chamar hoje.
─ Ah, é? Eu ando te chamando muito.
─ Sim, meu pai já perguntou porque ando com as roupas rasgadas.
─ Sou o ativo, hein?
─ Hahaha, palhaço! É foda subir nessa árvore todos os dias, acho que estamos acordando os pássaros.
─ Existem pássaros com insônia também.
─ Mas existem pássaros dorminhocos.
─ E existem pássaros pretos.

Silêncio...

─ Espera... Você tem uma caneta aí?

domingo, 30 de setembro de 2012

The morality's cave

Se a maldade foi implantada em nosso código genético, seria possível reverter essa mutação? É preciso entender que ser selvagem nada tem a ver com a falta de piedade que os seres humanos têm demonstrado.
Faz parte da natureza o predatismo, não há choque em ver um leão matando uma zebra, seu instinto é esse.
Mas não há uma explicação sensata e racional para explicar o motivo de uma pessoa ferir outra.

É claro que faz parte do ser humano defender sua família, amigos e a si mesmo. O organismo é quem cuida desse lado defensivo em alguma situação de risco, é mais que autopreservação.
Ainda assim, quem dera se o mundo fosse feito por pessoas na defensiva e não somente no ataque sem alguma razão lógica.
O rótulo racional começa a ser duvidoso diante de tanta irracionalidade cometida pelos neurônios que deveriam auxiliar no pensamento, não em crimes com alto índice de crueldade.
Se a evolução criou um monstro frio e egoísta, não teria sido melhor continuar se expressando com uma linguagem não verbal nas paredes de um lar seguro e rochoso?

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Put your arms around my life

Já não tenho aptidão para lidar com tantas cobranças e descontos em minha pele. Cada dia que passa tenho mais certeza que sinto náuseas de liberdade, mas esse vômito não chega nunca.
De que adianta chorar nos ombros daqueles que são despreocupados da minha realidade? Desabafos não são suficientes para fazerem ideia do que venho passando nos últimos anos.
E se faço menção do autor de meu desespero, me julgam mal, pois não carrego os anos da experiência para sempre ter razão, é verdade.
Mas se os jovens são tão tolos e desmerecidos da razão, eu pergunto: E quando a idade era jovem? Será que os argumentos ditos aos gritos fariam tanto sentido como são proferidos nesse instante? Mas é claro que fariam.
Já não há o senso da igualdade nessas questões há muito tempo. E os herdeiros do repúdio nadam na corrente que vai direto para as pedras. Sorte de quem não agonizou em sua morte e se foi sem encarar os olhos do sacrifício.
Até mesmo a idade está corrompida, sendo que jamais fora livre para dizer o que sentia, repeliu seu sentimento a não ser o pessimismo que atinge todos os caminhos, exceto sua própria rota.
E eu lhes pergunto se esses dias irão terminar de uma vez ou se o tempo dirá quando for o momento certo para começar a andar.
O tempo anda, corre, se apressa e para. Doente de tanto esperar por sua maratona que atrasou. E esse desespero é tolo e meticuloso, pois veste máscaras diversas, tanto que nem mesmo dois anos são suficientes para mostrar todo seu vestuário.
Há tantos hematomas em meu corpo que é preciso saber onde observá-los. Uns estão invisíveis até para meus mais sólidos confidentes e outros escancarados e gritantes, esperando serem invadidos pelos companheiros, para enfim se deitar e chorar. Pelo dia que se fora sem ser realmente vivido.
A ânsia que aos poucos clamava por oxigênio, agora vira soluço e se afoga nesses mares de incertezas. O horizonte está muito distante e jamais sentirá um afago que desperte a validade de seu viver, talvez daqui uns anos quando o silêncio encher o frasco da esperança macabra. Deixo que julguem o quanto quiserem, a realidade de cinismo pouco me importa.
Mas não pense que essas artérias são justas pelo fato de existir, não. Já que pouco se fala nisso, por que entender o desnecessário? Seria como atravessar um labirinto com paredes imaginárias, diferente da realidade aqui vivida.
As paredes só não são mais sólidas do que o desprezo que nasceu no resquício de um nome que pouco importa agora.

sábado, 1 de setembro de 2012

And me? I'm here.

Neste teto de dois metros noto que os centímetros já não estão tão alinhados assim.
As medidas que aparentemente me dão conforto, me sufocam aqui dentro.
Há grades por todos os lados, negras como está hoje lá fora.
Quando a noite é escura, o breu vai se divertir.
E eu? Aqui.

A televisão já vai começar a mostrar o programa diário das seis da tarde.
É muita sujeira para pouca informação. Não quero ser telespectador,
mas se me recuso a ver o espetáculo, me apunhalam com mal dizeres.
Os jornaleiros fecham suas lojas e vão se divertir.
E eu? Aqui.

Em meu balanço posso ir mais longe, fui vetado daquilo que almejei,
já sou velho para as restrições que me aplicam em vão.
Não há como provar se o teste não me é oferecido.
Os semelhantes foram se divertir.
E eu? Aqui.

Sonhos incompletos e roteiros nunca escritos,
é passatempo diário de um viajante sem passagem.
As aparências podem enganar outras populações, mas
a mim nunca enganou. Eles não foram se divertir e é
por isso que eu estou aqui.


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A pseudo-analysis

Se ela é tão equilibrada, seria eu deficiente do labirinto? A figura feminina que rodopia feito peão, mas que é mais graciosa do que um objeto que custa pouco.
Talvez a cidade não seja maravilhosa, ela não é nada comparada ao seu bom humor quando entra na loja de discos, nem mesmo os bordéis mais tradicionais são tão eróticos feito o seu cruzar de pernas.
Há uma linha tênue, quase invisível  entre os girassóis e seu sorriso ao deliciar-se com suco de laranja.
A biblioteca Nacional do Rio de Janeiro abandonaria suas prateleiras para que pudesse ser tocada pela curiosidade que há em seus dedos.
Se fosse nascida, a revolta da Chibata não ocorreria por castigos físicos. Que marinheiro não gostaria de apanhar por ela? Se pedisse, uma âncora seria colocada no lugar do Cristo só porque ela adora a moda náutica que Coco Channel criou nos anos quarenta.
Se seu vestido voa, não há nada que ouse se mover, ela não faz ideia de seu poder.
Frequento uma loja de discos desde a adolescência, tento conseguir um sorriso do dono desde então, na época boêmia as prostitutas pareciam o símbolo ideal de erotismo.
Os girassóis se movimentam por um amor platônico pelos raios ultravioleta, as laranjas que escolhi apodreceram antes do meu notar.
As folhas dos livros me cortam e sua poeira serve como defesa para minhas mãos grosseiras.
Nenhum marinheiro apanharia por mim, mas me arrebentariam se eu resolvesse mudar o Cristo de lugar.
Quando caminho, panfletos inúteis são jogados em meu rosto.


Ela é um anjo porque eu sou um demônio.