Eu tentei não deixar a água da chaleira evaporar quando ela já havia atingido cem graus.
Tentei não deixar o café esfriar quando o segurava em uma caneca no Alasca.
Tentei não deixar que o arroz queimasse quando as crianças estavam famintas na África.
Tentei não deixar que o retrato caísse quando Newton mostrou a gravidade.
Tentei não deixar que o açúcar se misturasse quando ele pulou na minha bebida.
Tentei não manchar a tela em branco quando a tinta já havia secado.
Tentei terminar de ler um livro quando a página do último capítulo fora arrancada.
Tentei não assistir ao filme quando os créditos já haviam subido.
Tentei não te perder quando você já havia partido.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
terça-feira, 9 de julho de 2013
Deteriorando
E me conhece tão bem a ponto de saber quando estarei pronta para pedir socorro, como quem espera até o último segundo para gritar quando tem a sua janela invadida por alguém ruim.
Por favor, honey. Não me deixe morrer essa noite.
Sou um galho seco que não quer abandonar a sua árvore.
Sou o último gole de leite que não quer sair dessa garrafa porque está confortável aqui dentro.
Sou um giz de lousa colorido, entre todos os brancos, que fora rabiscado tantas vezes.
Sou a última pétala de um trevo que um dia já deu sorte.
Sou mero pelo de pincel que já traçou telas e paisagens um dia.
Sou a última estrofe desse livro de trezentas e quarenta e três páginas
que você lê pela quinta vez.
Sou eu, a que teme pelo abandono, mas anseia pela vontade e o medo de ser livre.
Por favor, honey. Não me deixe morrer essa noite.
Sou um galho seco que não quer abandonar a sua árvore.
Sou o último gole de leite que não quer sair dessa garrafa porque está confortável aqui dentro.Sou um giz de lousa colorido, entre todos os brancos, que fora rabiscado tantas vezes.
Sou a última pétala de um trevo que um dia já deu sorte.
Sou mero pelo de pincel que já traçou telas e paisagens um dia.
Sou a última estrofe desse livro de trezentas e quarenta e três páginas
que você lê pela quinta vez.
Sou eu, a que teme pelo abandono, mas anseia pela vontade e o medo de ser livre.
sábado, 29 de junho de 2013
Take this DNA out
Ele havia deixado que sua mente andasse adiante, quando a realidade é que a sua idade havia parado no caminho. O triste fato é que uma nunca mais encontraria a outra, pois quanto mais a idade avança, mais a sua mente corre contra o caminho da imaturidade.
Diariamente suas mãos iam de encontro com a expressão de seu rosto, deformando-o, ao escorrer com dedos fortes em pressão, dos olhos até o pescoço. Numa tentativa frustrada de arrancar os próprios olhos porque não queria ver e de se sufocar no pescoço em um nó imaginário porque não queria mais viver.
O DNA podre havia pulado o seu organismo, infelicidade ou não, ele poderia sair para beber se todos fossem massacrados como num filme de terror em um cenário sujo do Texas.
Seu pai sabia como ser surpreendentemente cruel, embora pensasse que o conhecia e que todas as maldades já haviam sido feitas, ele conseguia se superar em determinado momento com novas humilhações ou outros desaforos.
Sua garganta era como um pantanal, engolia anfíbios a todo instante sem deixá-los escapar. Às vezes, diante do espelho, folheava um dicionário velho (e tão miserável quanto sua existência) a procura de palavras que pudessem descrever o que sentia. E a cada palavra encontrada, ela era riscada.
Certo dia, não pode mais encontrar palavras, metade de um dicionário riscado é inútil. E mesmo que os rabiscos sejam feitos a lápis, o papel não volta a ser o mesmo após as carícias de uma borracha da terceira série que nunca terminava.
Nas noites andava em círculos em seu quarto, ou então se deitava no chão porque a cama era o lugar mais correto para dormir. E de lugares corretos, estava farto.
Na cozinha, com os pés sobre o corredor frio, abriu a gaveta e contemplou o seu reflexo em uma faca de cabo comprido. O reflexo de si mesmo implorava por um banho de hemoglobina própria, era tentador.
Atirar a faca contra o próprio peito teriam vários significados. Cessaria as contrações cardíacas involuntárias, um meio de mandar na própria vida.
Por mais dor que sentisse a todo instante, a dor física não o deixou satisfeito. Nem na possibilidade de pensar que poderia sobreviver, e a dor de relatar o que o motivou a fazer aquilo o irritava.
Não queria dar mais explicações do que fazia, quem encontrava, com quem sonhava, quantas vezes espirrava.
Se fosse internado em uma clínica com o diagnóstico de insanidade, seria o fato mais cômico de sua vida. Ele era a lucidez na casa dos loucos e desalmados. Se tinha motivos para ficar preso em um lugar longe de tudo aquilo, não era por falta de lucidez, mas sim pelo excesso da mesma.
A porta que o felicitava com a sacada parecia como o paraíso. As luzes dos prédios altos faziam-no imaginar pessoas inexistentes, residentes de suas fantasias alucinógenas.
O simples fato de tentar tocar as suas fantasias foi o combustível que precisava. Ele não tinha uma arma para usar contra si mesmo, o que precisava era transformar o próprio corpo em uma.
Que utilidade teria seu esqueleto além de sustentar músculos, tecidos e cartilagem? A queda parcial pôde dizer quando ele se jogou.
Diariamente suas mãos iam de encontro com a expressão de seu rosto, deformando-o, ao escorrer com dedos fortes em pressão, dos olhos até o pescoço. Numa tentativa frustrada de arrancar os próprios olhos porque não queria ver e de se sufocar no pescoço em um nó imaginário porque não queria mais viver.
O DNA podre havia pulado o seu organismo, infelicidade ou não, ele poderia sair para beber se todos fossem massacrados como num filme de terror em um cenário sujo do Texas.
Seu pai sabia como ser surpreendentemente cruel, embora pensasse que o conhecia e que todas as maldades já haviam sido feitas, ele conseguia se superar em determinado momento com novas humilhações ou outros desaforos.
Sua garganta era como um pantanal, engolia anfíbios a todo instante sem deixá-los escapar. Às vezes, diante do espelho, folheava um dicionário velho (e tão miserável quanto sua existência) a procura de palavras que pudessem descrever o que sentia. E a cada palavra encontrada, ela era riscada.
Certo dia, não pode mais encontrar palavras, metade de um dicionário riscado é inútil. E mesmo que os rabiscos sejam feitos a lápis, o papel não volta a ser o mesmo após as carícias de uma borracha da terceira série que nunca terminava.
Nas noites andava em círculos em seu quarto, ou então se deitava no chão porque a cama era o lugar mais correto para dormir. E de lugares corretos, estava farto.
Na cozinha, com os pés sobre o corredor frio, abriu a gaveta e contemplou o seu reflexo em uma faca de cabo comprido. O reflexo de si mesmo implorava por um banho de hemoglobina própria, era tentador.
Atirar a faca contra o próprio peito teriam vários significados. Cessaria as contrações cardíacas involuntárias, um meio de mandar na própria vida.
Por mais dor que sentisse a todo instante, a dor física não o deixou satisfeito. Nem na possibilidade de pensar que poderia sobreviver, e a dor de relatar o que o motivou a fazer aquilo o irritava.
Não queria dar mais explicações do que fazia, quem encontrava, com quem sonhava, quantas vezes espirrava.
Se fosse internado em uma clínica com o diagnóstico de insanidade, seria o fato mais cômico de sua vida. Ele era a lucidez na casa dos loucos e desalmados. Se tinha motivos para ficar preso em um lugar longe de tudo aquilo, não era por falta de lucidez, mas sim pelo excesso da mesma.
A porta que o felicitava com a sacada parecia como o paraíso. As luzes dos prédios altos faziam-no imaginar pessoas inexistentes, residentes de suas fantasias alucinógenas.
O simples fato de tentar tocar as suas fantasias foi o combustível que precisava. Ele não tinha uma arma para usar contra si mesmo, o que precisava era transformar o próprio corpo em uma.
Que utilidade teria seu esqueleto além de sustentar músculos, tecidos e cartilagem? A queda parcial pôde dizer quando ele se jogou.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Royalty
Nessa chuva tão latente eu vejo as moças correrem.
Elas estão preocupadas em voltar do horário de almoço
para o trabalho com o cabelo bagunçado, da maneira natural
que ele é sem adereços térmicos.
Eu também vi um moço alto passar protegendo a sua pasta
com documentos mais importantes que sua saúde,
afinal de contas sua camisa branca já estava colada em seu corpo
que pegaria um resfriado naquele instante.
Eu vi senhoras correndo e quase caindo, pobrezinhas.
Elas queriam chegar mais cedo em casa para fazer aquela sopa
quente que o marido e os netos gostam.
A chuva estava muito fria e um tanto forte.
Quem tinha guarda chuva era considerado burguês.
Então viramos burgueses assim de repente, eu e meu amigo mais alto.
Até porque ele sempre terá um lugar em meu grande guarda chuva desenhado
de xadrez e vermelho.
Nos achavam burgueses e realmente éramos.
Mas havia um detalhe importante na questão:
Somos burgueses por amor, a chuva é a revolução,
lutamos contra ela, mas no fim... sempre dividiremos
nossos guarda chuvas.
Para o meu melhor amigo Lucas Miquelon.
Elas estão preocupadas em voltar do horário de almoço
para o trabalho com o cabelo bagunçado, da maneira natural
que ele é sem adereços térmicos.
Eu também vi um moço alto passar protegendo a sua pasta
com documentos mais importantes que sua saúde,
afinal de contas sua camisa branca já estava colada em seu corpo
que pegaria um resfriado naquele instante.
Eu vi senhoras correndo e quase caindo, pobrezinhas.
Elas queriam chegar mais cedo em casa para fazer aquela sopa
quente que o marido e os netos gostam.A chuva estava muito fria e um tanto forte.
Quem tinha guarda chuva era considerado burguês.
Então viramos burgueses assim de repente, eu e meu amigo mais alto.
Até porque ele sempre terá um lugar em meu grande guarda chuva desenhado
de xadrez e vermelho.
Nos achavam burgueses e realmente éramos.
Mas havia um detalhe importante na questão:
Somos burgueses por amor, a chuva é a revolução,
lutamos contra ela, mas no fim... sempre dividiremos
nossos guarda chuvas.
Para o meu melhor amigo Lucas Miquelon.
sábado, 8 de junho de 2013
Sound of man
Sonetos vem e vão,
como chuva de verão que molha
a roupa no varal.
Falam sem dizer nada, mostram que
o sonar é um ato de amor e dor ao
mesmo tempo.
O soneto entra pela janela e me visita,
certa noite pediu para ficar, como recusar
o pedido de um soneto que pede
em forma de cantar?
Na madrugada insana, o soneto
fez poesia, disse coisas loucas e
deitou em minha cama, sonou e
sonou até me ouvir sonhar.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Smiling sheep
A gentileza na conquista
que leva encanto,
é pura invenção do teu silêncio.
E as ladies faz do pranto
rotina de um lenço sujo de cimento
que não seca com o vento sem
se despedaçar.
Se nos dentes vem com sorrisos,
já começa o martírio só de imaginar.
Que no bolso tens um canivete junto
a rosa que está pronta para entregar.
Talvez ninguém repare, mas esses olhos
são líderes de matilhas que dilaceram
as feridas causadas nessa vida de
prazeres e lividez.
Mas se és bandido em pele de mocinho,
E se teu cavalo e tua espada apenas matam
por diversão, não sei se é para ter cuidado,
mas de qualquer maneira não existe
um contrato para saber quem é
bom ou vilão.
Ovelha sorridente ─ Inspirada no sorriso de Alexandre Kumpinski no clipe "Despirocar"
terça-feira, 7 de maio de 2013
Paul McCartney
Ah... se nessa esquina eu o encontrasse,
e falasse de mil coisas sem dizer nada.
Talvez fosse possível que não o amasse tanto,
e não decorasse minhas paredes com suas
poesias.
Quero o abraçar sem nunca mais soltar,
admitindo que é impossível não o amar,
e quem sabe se um dia tocar,
doces acordes a sonar.
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